Filme exibido em Tribeca focaliza tradutor afegão decapitado

segunda-feira, 27 de abril de 2009 11:47 BRT
 

Por Christine Kearney

NOVA YORK (Reuters) - Quando o caixão do jornalista afegão Ajmal Naqshbandi foi carregado pelas ruas de Cabul em 2007, moradores da cidade gritaram que o mundo não se importava com ele.

O documentário "Fixer: The Taking of Ajmal Naqshbandi," exibido no festival de cinema Tribeca esta semana, examina a vida de Naqshbandi, considerado um dos melhores "fixers" do Afeganistão. "Fixer" significa alguém que resolve problemas, e, no Afeganistão, indica as pessoas locais que trabalham para jornalistas estrangeiros como tradutores e organizam entrevistas para eles. O filme questiona o valor que o mundo atribui à vida de um afegão, comparada à de um ocidental.

"Para muitos afegãos, o caso de Ajmal comprovou o que já suspeitavam -- que a comunidade internacional não se importa com o Afeganistão e que a vida de um afegão vale menos que a de um estrangeiro", disse o diretor do filme, Ian Olds.

Olds, norte-americano de 34 anos, decidiu fazer o filme depois de testemunhar a importância dos "fixers" no Iraque, onde rodou seu filme anterior, "Ocupação: Terra dos Sonhos", que mergulhou na realidade de um pelotão de soldados norte-americanos.

O diretor estava filmando Naqshbandi como parte de um documentário sobre "fixers". Depois da morte do afegão, Olds contou que quase desistiu do filme, mas então decidiu fazer de Naqshbandi sua figura central.

"Me parece trágico e doloroso usar a morte de um amigo como artifício dramático", contou o diretor. "Mas, quanto mais eu pensava em Ajmal, mais isso me parecia obrigatório."

Grupos de defesa dos direitos humanos dizem que, no Iraque e Afeganistão, os "fixers" correm mais risco de ser mortos do que os jornalistas estrangeiros, porque são vistos por seus captores como traidores e porque suas vidas têm pouco peso de barganha.

Ajmal Naqshbandi foi sequestrado no início de 2007 com o jornalista italiano Daniele Mastrogiacomo e o motorista afegão Sayed Agha numa estrada isolada na província de Helmand, vista pela maioria dos estrangeiros como lugar perigoso demais para se ir.

O filme mostra imagens parcialmente editadas da decapitação de Agha e de Naqshbandi e Mastrogiacomo suplicando por sua libertação, filmadas pelo Taliban. Duas semanas depois, após intervenção do governo italiano, Mastrogiacomo foi libertado em troca de cinco prisioneiros do Taliban.

A soltura do jornalista italiano fez manchetes em todo o mundo, mas a família de Naqshbandi diz que o tradutor afegão foi esquecido e que, quando o Taliban exigiu a soltura de outros insurgentes em troca de sua vida, o governo afegão recusou. Naqshbandi, que tinha 24 anos e era recém-casado, foi decapitado.

 
<p>Amigos e parentes de Ajmal Naqshbandi, o tradutor afeg&atilde;o de um jornalista italiano sequestrado, carregam seu caix&atilde;o durante seu funeral em Cabul. 11/04/2007. REUTERS/Goran Tomasevic</p>