May 21, 2009 / 12:18 PM / 8 years ago

ESTREIA-Documentário recupera figura do poeta Patativa do Assaré

6 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO (Reuters) - Conhecido por filmes de ficção inspirados pela cultura popular, como "Corisco & Dadá" (1996) e "Lua Cambará - Nas Escadarias do Palácio" (2002), o cineasta Rosemberg Cariry escolhe como protagonista deste documentário, que estreia em São Paulo na sexta-feira, o poeta popular e violeiro Patativa do Assaré (1909-2002).

Um aspecto central deste filme é o resgate da figura do artista, cujo nome verdadeiro era Antônio Gonçalves da Silva, nascido na cidadezinha de Assaré, no sertão cearense, que depois assumiu o pseudônimo artístico, o nome de um pássaro.

Os fatos essenciais de sua vida aconteceram na infância. Como ele mesmo conta, não frequentou mais de seis meses de escola, o que não o impediu de manejar a língua portuguesa com segurança e sofisticação. Autodidata, ele aprendeu a dominar seus segredos na leitura de livros, especialmente dos poetas da terra, além de jornais e revistas, mais do que nas gramáticas, que nunca o atraíram.

Bem antes disso, aos 4 anos, um conjunto de doenças mal-curadas custou-lhe a visão de um olho. A pobreza em que sua família vivia foi agravada pela morte precoce do pai, quando Patativa tinha 9 anos.

Agricultor por necessidade de sobrevivência desde essa idade, Patativa encontrou cedo também a viola, empunhando-a, ainda adolescente, junto com seus versos, em circuitos populares de feiras e festas.

O primeiro reconhecimento de fora do seu meio veio numa curta viagem a Belém do Pará, que o expôs a outros ares e estilos em plena prosperidade do ciclo da borracha, nas primeiras décadas do século 20. Logo ele retornou ao Ceará, saudoso das raízes que sempre o inspiraram.

VEIA POLÍTICA

Na vida sacrificada dos sertanejos, sempre no centro de suas poesias, intuitivamente também encontrou uma raiz política. Como ele conta numa entrevista à televisão, já nos anos 1980, leu também por sua conta Marx e Lênin e se confessa "um socialista de coração".

Assim, a migração, a reforma agrária, os desmandos dos poderosos, a desigualdade na divisão das riquezas, tudo isso nutriu sua inspiração em trabalhos conhecidos como "Triste Partida" - gravada por Luiz Gonzaga -, "Eu Quero", "Teia de Aranha" e "Seu Dotô não me Conhece".

A veia política causou-lhe problemas mais de uma vez. Em 1943, chegou a ser preso por ter ironizado em versos a frequente ausência no posto do então prefeito de Assaré, sua terra natal. Mas a prisão não demorou mais de 15 minutos, como o próprio poeta recorda, irônico.

Mesmo durante a ditadura militar (1964-1985), a disposição crítica de Patativa não se abateu. Logo no primeiro governo, de Castelo Branco, o artista se lamentava: "Por causa desse Castelo/nunca mais castelo eu fiz".

Vigiado pelas autoridades, Patativa assistiu à prisão de pessoas ligadas a ele, como o comerciante Juvêncio Mariano e o líder camponês Antônio Pompeu, resistindo pacificamente e sendo deixado à margem, talvez, por se encontrar fora das grandes cidades.

Preservado, de qualquer modo, dentro do país, enquanto tantos outros artistas e políticos partiam para o exílio, sua lucidez cristalina era reconhecida e lembrada nos meios intelectuais. E o foi mais ainda a partir de 1979, com a chegada da anistia, que trouxe de volta os que partiram e acelerou o processo de redemocratização.

O filme de Cariry é particularmente feliz na decisão de contextualizar a obra de Patativa do Assaré usando um rico material de arquivo - como os videoteipes de publicidade institucional do tempo do general Emílio Garrastazu Médici, que governou entre 1969 e 1974, o período mais duro da ditadura.

Além disso, são usados trechos de filmes da época para ilustrar a temática sertaneja dos poemas de Patativa, caso de "Aruanda" (1960), de Linduarte Noronha, "Viramundo" (1965), de Geraldo Sarno, e "O País de São Saruê" (1971), de Vladimir Carvalho.

Outro acerto é mostrar o processo pelo qual a poesia matuta de Patativa rompe o cerco do isolamento regional para receber maior divulgação pelo país. Isto acontece quando ele é ajudado pelo latinista José Arraes de Alencar a publicar sua obra em livro, a partir de "Inspiração Nordestina", o primeiro deles, ainda nos anos 1960, quando o poeta já tinha décadas de estrada.

O reconhecimento internacional de sua obra, especialmente na França, é lembrado nos depoimentos da brasilianista Sylvie Debs e de Jean-Pierre Rousseau, seu tradutor para o francês, que recorda o esforço para manter a fidelidade à métrica e musicalidade peculiares dos versos do brasileiro.

Filmado entre 1979 e 2006, em diversos formatos - super-8, 16 mm, 35 mm - e finalizado em 2007, o filme chega às salas de cinema quase dois anos depois de sua première, no Cine Ceará daquele ano. O que evidencia as dificuldades ainda existentes no Brasil para a circulação de obras como esta, de cunho eminentemente cultural.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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