ESTREIA-"Garapa", de Padilha, chega aos cinemas do país

quinta-feira, 28 de maio de 2009 16:51 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Qualquer prato de comida, por mais light que seja, parecerá indigesto após a sessão do documentário "Garapa", de José Padilha, que estreia sexta-feira.

À mesa, não se senta a família do comercial de margarina, mas representantes de 11,5 milhões de pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Em preto e branco, o filme de Padilha ("Ônibus 174" e "Tropa de Elite") registra o cotidiano vazio de três famílias do Ceará, que aplacam a fome de seus filhos com a garapa do título, composto de água e açúcar servido às crianças para substituir o leite praticamente inexistente.

Sem trilha sonora, com câmera na mão e lentes fixas, "Garapa" quer que o espectador olhe de perto as estatísticas já conhecidas, durante longos e angustiantes 110 minutos.

É parte desse jogo, então, a transmissão de informações sobre mortalidade infantil e a apresentação de imagens recorrentes de crianças cobertas por moscas.

Padilha começa o filme como fez Nelson Pereira dos Santos em "Vidas Secas" (1963). Só que, aqui, os passos decididos do protagonista Fabiano e sua gente são substituídos pelo caminhar automático de mães, que peregrinam até o povoado mais próximo em busca de comida.

A cena documental ganha moldes de ficção graças a montagem de Felipe Lacerda ("Ônibus 174", "Entreatos" e "Se Eu Fosse Você") que, paralelamente, contrapõe a caminhada das mulheres à espera das crianças em casa.

O longa foi filmado em 2005, mas só agora chega aos cinemas. A produção foi interrompida depois que o diretor recebeu o convite para realizar "Tropa de Elite" (2007), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim. Mas o tempo ajudou Padilha que adquiriu agora maior visibilidade para levantar a bandeira contra a fome no Brasil e no mundo.

"Garapa" também tem sido visto como arma para pleitear a aprovação de um Projeto de Emenda Constitucional para transformar a alimentação em direito garantido pela Constituição.   Continuação...

 
<p>Foto de arquivo do cineasta brasileiro Jos&eacute; Padilha no Festival de Berlim. 16/02/2008. REUTERS/Johannes Eisele</p>