ESTREIA-Mundo corporativo é desculpa para "Duplicidade"

quinta-feira, 4 de junho de 2009 11:15 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - A julgar pela temática dos dois filmes que escreveu e dirigiu, Tony Gilroy anda bastante preocupado com o mundo das grandes corporações.

"Duplicidade", que estreia no país nesta sexta-feira, é uma combinação entre espionagem, romance de alta voltagem, intriga e um pouco de comédia -- vinda basicamente do absurdo de toda a situação -- no mundo das grandes empresas.

No fundo, uma história de amor e sensualidade entre duas pessoas repletas de motivos para não confiarem uma na outra, "Duplicidade" é uma espécie de "Sr & Sra Smith" sem violência e com inteligência no lugar das armas.

Talvez o filme possa assustar quem busca um divertimento descompromissado estrelado por Julia Roberts. Divertimento há, mas este não vem de graça -- na contra-mão dos produtos pasteurizados e auto-explicativos de Hollywood que desembarcam semanalmente nos multiplexes do mundo.

Ao contrário de sua estreia na direção com "Conduta de Risco" (2007), Gilroy aqui deixa de lado a seriedade, tentando (e conseguindo) se comunicar melhor por meio da comédia logo nos créditos iniciais, quando dois chefões sisudos da indústria de higiene -- interpretados por Paul Giamatti e Tom Wilkinson -- caminham um em direção ao outro e se atracam exageradamente em câmera lenta.

Num prólogo, Claire (Julia) conhece Ray (Clive Owen, de "Filhos da Esperança") numa festa da independência dos EUA, em Dubai. Eles dormem juntos, mas ela sai à francesa e leva consigo alguma informação importante. Anos depois eles se reencontram e, por mais que ele insista que a conhece e foi enganado, ela nega. Os dois são ex-espiões governamentais que agora trabalham para empresa privadas -- o que é muito mais rentável. Durante o reencontro se dá um diálogo memorável, que será repetido outras vezes em diversas situações e para os mais variados efeitos.

Há um motivo óbvio mostrando como um foi feito para o outro: jamais encontrarão um par tão à sua altura, mas, ao mesmo tempo, nunca poderão confiar no outro. Ainda assim nenhum dos dois ex-espiões, embora juntos por motivos do coração e do bolso, quer confessar seu amor. Afinal, a outra parte iria acreditar?

Se no passado o que movia os filmes de espionagem era a Guerra Fria, com nações assimétricas e igualmente poderosas, agora o marketing global é responsável por movimentar esse gênero cinematográfico.

Gilroy, que também roteirizou os filmes da trilogia "Bourne", sabe disso e coloca em cena duas empresas de grande porte, chamadas Burkett & Randle e Equikrom, numa guerra séria, pelo mercado de xampu, fraldas geriátricas, cremes e loções -- a diferença entre esses dois produtos, aliás, como fica claro, é importante.   Continuação...

 
<p>Atores Julia Roberts e Clive Owen na estreia de "Duplicidade" em Paris. 12/03/2009. REUTERS/Gonzalo Fuentes</p>