ESTREIA-Kristin Scott Thomas interpreta ex-presidiária em drama

quinta-feira, 25 de junho de 2009 10:50 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - À primeira vista, o título "Há Tanto Tempo Que Te Amo" pode levar a pensar que este filme francês se trate de um drama romântico sobre paixões reprimidas e amores não concretizados. Nada mais enganador. A frase vem de uma música que tem uma grande importância para as duas irmãs protagonistas da história e que as remete ao resgate de um doloroso passado.

Roteirizado e dirigido pelo escritor francês Philippe Claudel, "Há Tanto Tempo Que Te Amo", que estreia em São Paulo e Rio, não deixa de ser um filme sobre o amor. Mas não a paixão romântica e sim um grande afeto que se mostra, nesta história, tão altruísta quanto doloroso. Há uma dor muito grande consumindo os personagens - especialmente as irmãs Juliette (Kristin Scott Thomas) e Léa (Elsa Zylberstein, "Pequena Jerusalém").

O diretor estreante Claudel (ganhador do César desta categoria) constrói seu filme em cima de suas personagens - todos muito bem delineados - e encontra atuações excepcionais, especialmente das duas atrizes.

Kristin, cuja imagem costuma estar ligada a inglesas ricas, esnobes e reprimidas, faz um trabalho bastante diferente daqueles que a tornaram famosa, como em "O Paciente Inglês" (96) e "Quatro Casamentos e um Funeral" (94), o que lhe valeu uma premiação da Academia Europeia neste filme - em que ela fala um francês bastante eficiente.

Fumando incessantemente e sem nenhum glamour, Juliette, que acaba de sair da prisão depois de 15 anos, não tem condições de sonhar com a retomada sua vida como era antes. Começando do zero, ela aceita o mínimo de ajuda da irmã, até poder conseguir um trabalho e manter-se sozinha.

O drama de Juliette desenvolve-se em fogo brando, de uma forma quase subliminar. É bem aos poucos que o público descobre os motivos da prisão e de sua reticência. Por isso, quando a revelação vêm à tona, é de um poder devastador - tanto para os personagens, que guardam esse peso dentro de si por tanto tempo, quanto para o público, ansioso para descobrir o motivo de tanto pesar.

Lea, a irmã caçula, passou o tempo em negação da tragédia do passado e pouco se lembra da infância em comum com Juliette. Suas escolhas, ao longo dos últimos anos, só serviram para afastar ainda mais as irmãs. Lea pouco visitou Juliette na prisão. E agora, por tudo isso, a tentativa de reaproximação mostra-se ainda mais difícil, embora necessária para a transformação das duas.

A câmera acompanha Juliette o tempo todo, quase sempre em closes no rosto da atriz. E embora a personagem esteja cercada por pessoas, sua linguagem corporal a mantém distante de todos - inclusive da irmã, do cunhado e das sobrinhas. Juliette é a personificação do isolamento e a materialização de uma culpa interna. Mesmo quando um colega de trabalho da irmã, Michael (Laurent Grévill, de "Atrizes"), tenta aproximar-se dela, Juliette mostra-se distante, resistindo a entregar-se novamente a qualquer tipo de relacionamento.

Quando finalmente, o passado de Juliette vem à tona, é um momento de catarse tanto para as duas irmãs, quanto para o público. Claudel, um acurado observador dos mecanismos familiares, prova com "Há Tanto Tempo Que Te Amo" que as prisões interiores podem mais opressoras do que as instituições penais da vida real.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
<p>Foto de arquivo da atriz Kristin Scott-Thomas em Berlim. 12/20/2003. REUTERS/Alexandra Winkler</p>