ESTREIA-"Enquanto o Sol Não Vem" traz temas polêmicos da França

quinta-feira, 16 de julho de 2009 10:37 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O cinema da francesa Agnès Jaoui é calcado nos personagens. É o arco de evolução das pessoas em cena que conduz a narrativa e não o contrário. E isso não é diferente em seu mais novo trabalho, "Enquanto o Sol Não Vem", o que não quer dizer que essa respeitada roteirista, diretora e atriz esteja se repetindo.

A cada trabalho, ela e seu co-roteirista e também ator, Jean-Pierre Bacri, encontram uma nova abordagem e se sofisticam.

Jaoui ganhou um prêmio pelo roteiro de "Questão de Imagem", em Cannes (2004), co-escrito por Bacri, e seu "O Gosto dos Outros" foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, além de ganhar dois prêmios Cesar (melhor filme e atriz coadjuvante), em 2001.

No filme "Enquanto o Sol Não Vem", que estreia em São Paulo nesta sexta-feira, Jauoi aborda, entre outras coisas, o legado que o feminismo deixou para sua geração. Ela é Agathe Villanova, uma política feminista, que retorna para a casa de sua infância, na região de Avignon, pouco depois da morte de sua mãe.

O reencontro entre as irmãs Agathe e Florence (Pascale Arbillot) traz à tona ressentimentos do passado, quando uma era a preferida da mãe. Ela, por sua vez, mantém um caso extraconjugal com Michel Ronsard (Bacri), um jornalista que faz um documentário sobre Agathe, que, no passado, foi escritora antes de entrar para a política.

Ronsard trabalha com Karim (Jamel Debbouze, de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain") na produção do documentário. No entanto, a presença do rapaz na casa da família traz outra complicação. Ele é filho da empregada, Mimouna (Mimouna Hadji), que trabalha com a família há décadas.

É desse estranhamento que "Enquanto o Sol Não Vem" encontra uma outra força política abordando a questão dos imigrantes e todo o ressentimento que acompanha Karim, que chega a fazer um vídeo com sobras de filmagens do documentário, atacando Agathe e sua família.

É com uma delicadeza quase subliminar, nas entrelinhas, que Jaoui toca em dois assuntos polêmicos na França contemporânea: mulheres na política e imigração. Se a comédia leve das primeiras cenas toma um desvio para um tom mais sério e até melancólico é porque isso é um reflexo do país da cineasta, onde liberdade, igualdade e fraternidade é um lema menos popular que no passado.

Filmes recentes, como os premiados "Bem Vindo" e "Entre os Muros da Escola", mostram a França como um caldeirão de etnias. O assunto está presente no filme de Jaoui, mas de outra forma. Tal qual a chuva que quase nunca dá uma trégua aos personagens, a questão está ao lado para não deixá-los esquecer, seja na figura de Karim ou na de outros personagens.   Continuação...

 
<p>A diretora francesa Agnes Jaoui e o ator Jean-Pierre Bacri, em Cannes. Ambos assinam o filme "Enquanto o Sol N&atilde;o Vem", que estreia em S&atilde;o Paulo nesta sexta-feira. REUTERS/Eric Gaillard</p>