ESTREIA-Em "Moscou", Coutinho radicaliza jogo de cena

quinta-feira, 6 de agosto de 2009 15:41 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Eduardo Coutinho é figura única no cinema brasileiro. Mais do que um documentarista, é um investigador. Seus longas, como "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), "Santo Forte" (1999), "Edifício Master" (2002) e "Peões" (2004), nada mais são do que conversas ou, como diz o cineasta, pessoas contando histórias.

Em 2007, no entanto, surpreendeu com um filme que parte de uma idéia simples para atingir resultados complexos, explorando uma fronteira tênue entre realidade e ficção ou, até mesmo, encenação. Trata-se de "Jogo de Cena", no qual mulheres contavam histórias de suas vidas e/ou representavam episódios vividos por outras pessoas.

Em seu novo trabalho, "Moscou", que estreia em São Paulo e Rio, Coutinho vai além nessa sua investigação e rompe qualquer linha que possa existir entre o real e o encenado.

Coutinho propôs ao grupo mineiro de teatro Galpão documentar o ensaio de uma peça de sua escolha, no caso "As Três Irmãs", clássico russo de Anton Tchecov. Já o diretor do ensaio foi escolhido pela trupe: Enrique Diaz, com quem eles nunca haviam trabalhado.

O resultado que se vê na tela é singular. O filme não é o making of da montagem da peça, mas uma investigação sobre a relação entre arte e realidade. Numa leitura mais profunda, busca explorar a importância da memória na vida do indivíduo.

Logo no começo do filme, numa de suas poucas intervenções, Coutinho deixa claro para os atores do Galpão e para o público do filme que o objetivo não é montar "As Três Irmãs", mas trabalhar o processo de montagem de uma peça que nunca será encenada.

O que "Moscou" traz, então, são ensaios e exercícios que Diaz propõe aos atores, como se estivesse montando a peça. Mas Coutinho não é um documentarista que se contenta em colocar a câmera na frente de seu objeto, no caso os atores, e simplesmente documentar.

Suas pesquisas vão bem além de simplesmente mostrar como se monta uma peça. Isso, aliás, passa longe de "Moscou".

O filme explora a inquietação da alma humana. O texto de Tchecov, escrito no início do século 20, mostra uma família em decadência que teve de abandonar a capital russa e mudar-se para o interior. O sonho de voltar para a cidade grande persegue os personagens. Dessa forma, Moscou representa não apenas a riqueza perdida, as glórias do passado, como também a utopia, o inatingível.   Continuação...