ESTREIA-Von Trier exorciza demônios pessoais com "Anticristo"

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 11:10 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - "É um doloroso, um arrepiante espetáculo que despontou para mim: abri a cortina da corrupção do homem." Com essa frase, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche começa o seu ensaio de 1888 chamado "O Anticristo". Mas essas palavras poderiam muito bem ser ditas pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier, em cujo mais recente filme, não por acaso intitulado "Anticristo", descortina, mais uma vez, a sordidez humana.

O longa estreia em São Paulo e Rio, nessa sexta-feira.

Aos 53 anos, o enfant terrible mais velho do cinema contemporâneo continua causando polêmica, repulsa e paixão em iguais medidas a cada novo trabalho acrescentado à sua carreira.

Desde os anos 1990, quando sua carreira decolou, Von Trier se tornou o autor residente do Festival de Cannes, no qual ganhou diversos prêmios como o Grand Prix ("Ondas do Destino", 1996) e o maior de todos, a Palma de Ouro, com "Dançando no Escuro" (2000).

"Anticristo" rendeu a láurea de interpretação feminina para sua protagonista Charlotte Gainsbourg, mas o barulho que o longa causou no festival, em maio passado, não será esquecido tão cedo, chegando quase a ofuscar o grande premiado, "A Fita Branca", do austríaco Michael Haneke.

Com duas mutilações, morte de uma criança, sexo explícito, o aborto de um animal e uma raposa falante, "Anticristo" apresenta um cardápio variado para todos os paladares.

Os elementos supostamente estranhos do filme podem, no entanto, parecer mero sensacionalismo e desviar o foco de algo mais interessante: até onde alguém pode chegar para lidar com a dor? A resposta: veja "Anticristo".

Von Trier criou o longa quando passava por uma depressão profunda e o filme realmente é o trabalho de alguém emocionalmente perturbado. Algumas pessoas livram suas neuras em sessões de análise. Outras, fazendo arte. Ainda bem que Von Trier pertence ao segundo caso.

Esse drama psicossexual conta apenas com dois personagens, Ele (Willen Dafoe, que já foi o próprio Jesus no filme de Scorsese, "A Última Tentação de Cristo") e Ela (Charlotte). Num belo prólogo, rodado em uma câmera ultralenta num preto-e-branco límpido, eles transam enquanto o filho pequeno passeia pela casa e mergulha para a morte ao cair de uma janela - não sem antes derrubar pequenas estátuas de três mendigos, chamados de Dor, Luto e Desespero.   Continuação...

 
<p>Foto de arquivo da atriz Charlotte Gainsbourg recebendo o pr&ecirc;mio de melhor atriz em Cannes pelo filme "Anticristo". 24/05/2009. REUTERS/Jean-Paul Pelissier</p>