27 de Agosto de 2009 / às 17:41 / 8 anos atrás

ESTREIA-Em "Amantes", personagem quer superar depressão com amor

<p>Foto de arquivo do ator Joaquin Phoenix em Los Angeles. 01/11/2008.Mario Anzuoni</p>

SÃO PAULO (Reuters) - "Amantes", que estreia no Brasil nessa sexta-feira, é filme que poderia ser extremamente óbvio - mas não é. Escrito e dirigido por James Gray, esse drama romântico tem uma premissa que lembra um famoso poema de Drummond. Aqui, Sandra ama Leonard, que ama Michelle, que ama Ronald, que não a ama o suficiente para abandonar a esposa e filho e ficar com ela. E todos sofrem por isso.

"Amantes" marca um amadurecimento do norte-americano Gray, mais conhecido por seus dramas policiais "Caminho Sem Volta" (2000) e "Os Donos da Noite" (2007). Aqui, trabalhando a partir de um roteiro que escreveu em parceria com Ric Menello, o cineasta aborda novamente um tema que lhe é caro: o papel da família na vida das pessoas. Os laços que unem podem tanto ser de amor como de desprezo, podem tanto ajudar, quanto oprimir.

Leonard (Joaquin Phoenix, em seu último trabalho antes de surtar publicamente no começo do ano) é um rapaz deprimido. Na primeira cena ele tenta se matar, se atirando de um píer em Brighton Beach.

Mais tarde, cicatrizes no pulso mostram que essa não foi a primeira tentativa. Preocupados, seus pais, Ruth (Isabella Rosselini) e Reuben (Moni Moshonov), armam um encontro entre ele e Sandra (Vinessa Shaw, de "De Olhos Bem Fechados"), a filha de um dono de uma rede de lavanderias com a qual Reuben espera fundir a sua pequena loja do mesmo ramo.

O relacionamento entre os dois jovens seria bom tanto para eles, individualmente, quanto para os negócios das famílias.

Embora se deixe levar pelas circunstâncias, Leonard é uma alma perdida, que vaga solitária até conhecer sua nova vizinha, Michelle (Gwyneth Paltrow). Ela parece ser o oposto dele, alegre, de bem com a vida, bem-sucedida e luminosa.

Mas, aos poucos, percebe-se que isso não passa de uma máscara que esconde a verdadeira Michelle, melancólica, autodestrutiva e vivendo um relacionamento complicado com um homem casado (Elias Koteas).

O drama central de "Amantes" é atemporal e poderia acontecer em qualquer lugar do mundo - não fossem pelos celulares bastante usados para comunicação entre os personagens.

O roteiro busca inspiração numa novela do russo Dostoievski chamada "Noites Brancas" (adaptada mais fielmente para o cinema em 1957, com a direção de Luchino Visconti, que no Brasil se chamou "Um Rosto Na Noite").

Leonard gravita entre essas duas mulheres. Sandra, meio sem graça, representa a segurança, os pés no chão que ele não tem. Já Michelle, tão misteriosa quanto hipnótica, é a excitação que falta em sua vida. Para quem está de fora, ou seja, o público, fica muito claro qual das duas é a mulher ideal para o rapaz. Mas, para ele, envolvido nesse turbilhão de sensações, todas ainda mais extremadas com a bipolaridade do personagem, é difícil romper a cegueira momentânea do amor.

Por trás de todo esse dilema na vida do personagem há um peso que tem atormentado rapazes de ascendência judia no cinema e na literatura norte-americana - especialmente aqueles criados por Philip Roth ou o personagem Augie March, de Saul Bellow -, a lealdade familiar. A divisão de Leonard entre essas duas mulheres representa a dúvida de seguir seu dever filial (casar-se com Sandra, uma boa moça de origem judia, o que também ajudaria economicamente a família) ou se entregar a Michelle, que representa o impulso, o perigo e a liberdade que ele não tem. É uma escolha difícil que atormenta o protagonista.

Gray pinta esse quadro de insatisfação com pequenas pinceladas, valorizando detalhes, construindo personagens com arcos e verossimilhança, ou seja, pessoas que amam, choram e sofrem a perda de um amor e são incapazes de lidar com essa dor. Num momento, Sandra pede a Leonard para deixá-la cuidar dele. Poucas cenas mais tarde, será ele quem repetirá a frase, mas agora a Michelle. Tamanha a alienação do personagem que ele precisa se valer de coisas ditas pelos outros para compreender e expressar aquilo que sente.

Os personagens de Gray parecem ter ciência de estarem fazendo suas últimas escolhas, que já passaram da idade de brincar de amar e que, se não forem rápidos, a vida cuidará de tomar decisões por eles.

Tal qual o poema de Drummond, "Quadrilha", no final, os personagens podem acabar infelizes por conta de um deus ex machina. Incapazes de decidir por si mesmos, de mãos atadas ou com medo, o destino acaba fazendo as escolhas e o resultado pode ser apenas o início de uma espiral de melancolia e desolação.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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