ESTREIA-"Alô Alô Terezinha" revisita época de Chacrinha

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 10:21 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Jornalista e crítico de cinema por formação, o carioca Nelson Hoineff estreou no cinema com o documentário "O Homem Pode Voar", sobre o pioneiro da aviação Santos Dumont. Ele vem se especializando em filmes sobre personalidades polêmicas.

Em seu currículo estão "Caro Francis", já exibido em festivais como o de Paulínia (SP), em julho de 2009, e ainda inédito no circuito comercial. Seu protagonista é o também jornalista Paulo Francis, falecido em 1997, famoso por colecionar inimigos por seu estilo agressivo e polêmico.

Também neste ano Hoineff lançou outro documentário, "Alô Alô Terezinha", que examina um dos maiores fenômenos da televisão brasileira - o apresentador Abelardo Barbosa (1917-1988), o Chacrinha.

Em sua primeira exibição pública, no Cine-PE, em abril, o documentário conquistou os prêmios de melhor filme, tanto do júri oficial quanto do júri popular, além do de melhor montagem. Agora, estreia em circuito nacional.

Na prática, o filme não é apenas sobre Chacrinha, mas também sobre os personagens de seus programas - que foram exibidos em várias emissoras, entre o final dos anos 1950 e meados dos anos 1980. E é na forma que opta por retratá-los que o filme se mostra discutível.

Hoineff demonstra que, em termos de ética cinematográfica, é o extremo oposto de outro documentarista, o veterano Eduardo Coutinho, que pauta trabalhos como "Edifício Master", "Peões" e "Jogo de Cena" por um grande respeito aos seus entrevistados. O diretor de "Alô Alô Terezinha", ao contrário, expõe as chacretes e ex-calouros do programa muitas vezes por um ângulo francamente escandaloso e mesmo desrespeitoso.

Exemplos disso não faltam. Ao entrevistar artistas que frequentavam assiduamente os programas de Chacrinha - Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Fábio Jr. e outros -, o cineasta revela-se acima de tudo interessado em saber se eles iam ou não para a cama com as chacretes. Para elas, também sua principal pergunta é com quem dormiram.

Com as chacretes, a exposição vai mais longe. Com uma delas, hoje senhora e gordinha, o diretor insiste para que experimente o maiozinho justo que usava na TV décadas atrás, documentando todo o seu esforço inútil. A mais famosa delas, Rita Cadillac, é entrevistada na cama por um fã. A situação mais constrangedora, no entanto, é quando se mostra outra delas, a índia Potira, nua numa fonte em frente a um restaurante onde trabalha - o que seria, segundo o filme, um "antigo sonho" dela.

O diretor se defende dizendo que apenas reproduz o universo de humor cruel que vigorava dentro dos programas de Chacrinha. A favor deste argumento, são vistos exemplos disso no documentário - que mostra trechos em que o apresentador questionava a opção sexual de um candidato e buzinando sem dó diversos desafinados. Um deles revela seu trauma até hoje, derramando lágrimas ao lembrar dos vexames sofridos.   Continuação...