ENTREVISTA-Filme argentino dá voz aos pais da Praça de Maio

segunda-feira, 9 de novembro de 2009 15:59 BRST
 

Por Lucila Sigal

MAR DEL PLATA, Argentina (Reuters) - As Mães da Praça de Maio são conhecidas mundialmente pela incansável busca por justiça para os filhos desaparecidos durante a ditadura militar argentina.

Mas o que aconteceu com os pais é a pergunta central de um documentário que estreia segunda-feira no Festival de Cinema de Mar del Plata.

"Padres de la Plaza, 10 recorridos posibles" tenta encontrar respostas através do testemunho direto de dez pais de filhos desaparecidos entre 1976 e 1983 e de maridos das Mães da Praça de Maio, uma organização de direitos humanos que luta para obter a verdade e a justiça há mais de 30 anos.

"Notamos que estava ausente a voz do pai, o que nos levou a perguntar o que aconteceu com eles. Os agrupamentos eram de mães, avós, filhos, familiares, incluindo irmãos, mas os pais não se agruparam", disse à Reuters o diretor do filme, Joaquín Daglio.

O documentário compete na seção Argentina da edição número 24 do Festival de Cinema de Mar del Plata, que ocorre até domingo na cidade balneária a cerca de 400 quilômetros de Buenos Aires.

O filme, simples e quase sem música, dá voz aos pais para que contem como lidaram com o desaparecimento de seus filhos e como acompanharam suas mulheres, que são a cara visível da luta.

Segundo organizações de direitos humanos, durante a última ditadura militar argentina desapareceram cerca de 30 mil pessoas. Na maioria dos casos os corpos não foram encontrados, uma das principais queixas dos pais.

"São 10 indivíduos entre milhares que viveram isso. A ideia do filme é aproximar as perguntas e propor um espaço de reflexão para seguir construindo a memória", disse Daglio.

Todos disseram que acompanharam suas mulheres material e moralmente. Alguns disseram que o trabalho impediu-os de se envolver mais e outros sustentam que era muito difícil realizar marchas pacíficas, como as feitas pelas mães todas as semanas, porque os homens são mais fáceis de se reprimir.

"Enquanto nossas companheiras participavam da ronda, nós nos mantínhamos nas esquinas próximas à Praça de Maio para ver se aconteceria algo a elas", diz no documentário Jaime Steimberg, um dos pais, que morreu há dois anos e pediu que lançassem suas cinzas no mar, onde acreditava estar seu filho.