ESTREIA-"Polícia, adjetivo" fala da Romênia pós-comunismo

quinta-feira, 19 de novembro de 2009 12:09 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - "Polícia, Adjetivo", de Corneliu Porumboiu, que estreia em São Paulo na sexta-feira, é mais uma prova de que o cinema romeno vai muito bem, obrigado.

Tal qual os premiados "4 meses, 3 semanas e 2 dias" (Palma de Ouro em 2007), de Cristian Mungiu, e "A Leste de Bucareste" (Camera D'or em 2006), filme de estreia de Porumboiu, essa nova produção também tem como grande mérito colocar em sintonia forma e conteúdo, discutindo não apenas a linguagem cinematográfica, como também os resquícios do passado recente -- o regime comunista -- no presente do seu país.

Escrito e dirigido por Porumboiu, "Polícia, Adjetivo" é uma espécie de anti-thriller de ressonância ética e moral. Ao centro está um policial que se debate com um dilema: rejeitar ou cumprir as ordens do seu superior, seguindo sua consciência. Disfarçado, Cristi (Dragos Bucur) investiga um adolescente, Victor (Radu Costin), na cidade de Vasilu, para descobrir como o rapaz consegue drogas.

Seria uma investigação corriqueira, sem muitos danos para Victor, não fosse o fato de Cristi presenciar o jovem oferecendo cigarros para os amigos. Aí surge um dilema que consome o policial: seu superior, Nelu (Ion Stoica), quer que o rapaz seja preso, mas Cristi se recusa a cumprir a ordem. Para ele, em breve as leis da Romênia serão mudadas -- como as dos demais países europeus -- e os atos de Victor não serão mais um crime. Então, porque estragar a vida de um rapaz por algo tão pequeno?

Em torno de uma trama tão simples, mas de implicações tão complexas, Porumboiu constrói uma pequena obra-prima, aliando sua narrativa ao visual, ou seja, fotografia, trabalho de câmera e montagem. Em planos nos quais aparentemente nada acontece, os detalhes são de extrema importância, pois têm muito a dizer. As mesmas imagens parecem se repetir diversas vezes em frente à câmera, mas olhares mais atentos percebem o quanto muda a cada cena.

A estagnação das vidas, a falta de perspectivas, mas a esperança de que isso mude, de que a Romênia entre em compasso com o restante da Europa, toma o filme. A vida de Victor é sem graça, sem as excitações comuns da juventude, como a de Cristi também.

Recém-casado com Anca (Irina Saulescu), seu cotidiano se resume ao trabalho e algumas horas em casa com a mulher, com quem não tem muito o que conversar. A estagnação da cidade de Vasilu, aparentemente parada no tempo, é o retrato do país que ainda tenta curar as feridas do regime totalitário.

Construído num ritmo próprio, "Polícia, Adjetivo" é um filme que exige do público paciência e concentração. O suspense cresce de forma sutil em passos propositalmente lentos, mas, ao final, a velocidade da narrativa, a forma como os fatos acontecem e são apresentados fazem tanto sentido que é impossível pensar numa outra forma de narrar e concluir a história.

Como o protagonista, Cristi, a câmera é observadora e evita fazer julgamentos, se preocupando apenas em reportar os fatos, como faz o policial. O clímax, envolvendo Cristi, um colega de trabalho e o capitão Anghelache (Vlad Ivanov, o abortista de "4 meses, 3 semanas e 2 dias"), é cinema em sua essência. Enquadramento e direção sustentam a tensão até convergir numa resolução inevitável e, por isso mesmo, poderosa, mostrando a dura herança do passado que a Romênia do presente precisa aprender superar.   Continuação...