ESTREIA-"Entre a Luz e a Sombra" trata sobre dilemas das prisões

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 13:23 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Primeiro longa da jornalista Luciana Burlamaqui, o documentário "Entre a Luz e a Sombra" revisita a questão carcerária no Brasil por um novo ângulo. O filme focaliza o trabalho da atriz Sophia Bisilliat como voluntária social em presídios como o Carandiru, em São Paulo, e a relação que se formou entre ela e dois detentos que se tornaram uma famosa dupla de rappers -- a 509-E, formada por Dexter e Afro-X.

A estreia acontece na sexta-feira em São Paulo e Belo Horizonte. O lançamento no Rio deve acontecer no próximo dia 4 de dezembro.

Acompanhando a vida destes três personagens desde 2000, a diretora coloca em primeiro plano a tentativa de ressocialização dos dois presos como músicos, que terá resultados diferentes para os dois.

Nascidos na periferia de São Bernardo do Campo, Marcos Fernandes de Omena (o futuro Dexter) e Christian de Souza Augusto (Afro-X) foram amigos de infância, mas se separaram no começo da vida adulta. Reencontraram-se na cela 509-E, que terminaria batizando sua dupla musical, no Carandiru, anos depois, um condenado por um homicídio e vários assaltos a mão armada e o outro, pelo mesmo tipo de assalto.

Luciana Burlamaqui, que várias vezes se encarrega também da câmera do filme, capta o ambiente sombrio do Carandiru, às vésperas de sua desativação, que ocorreu em 2002. Através da história dos dois presos, que começam a sair com licenças especiais para darem shows -- autorizados pelo então juiz-corregedor dos presídios paulistas, Octávio de Barros Filho -- a diretora cria oportunidades para a análise de vários tipos de dilemas sociais.

Sophia Bisilliat torna-se empresária da dupla de rappers e, mais adiante, namorada de Dexter. Ele convive com os dois filhos dela do primeiro casamento e conhece realidades distintas de sua vida anterior, como nos shows -- onde suas letras, falando das tristezas da vida dos pobres e prisioneiros, viram sucesso entre jovens de vários bairros da periferia paulista.

Ironicamente, o sucesso da dupla, que inspira outros presos a seguirem seu exemplo, provoca reações dentro do ambiente judiciário e pressões sobre o juiz-corregedor. Algum tempo depois, os rappers são impedidos de sair com a mesma frequência, especialmente depois da ocorrência de uma rebelião, em 2001 -- em que a então namorada de Afro-X, a cantora Simony, que estava grávida dele, foi feita refém, ao lado de outros familiares que vieram visitar os detentos.

Algum tempo depois, a liberdade condicional obtida por Afro-X terminará sendo a última gota para o fim da dupla. Afro-X dará prosseguimento à carreira musical, enquanto o destino de Dexter, também rompido com Sophia, toma outro rumo.

Com o fechamento e demolição do Carandiru, ele será transferido de prisão e prisão, terminando na unidade de segurança máxima de Tremembé (SP) -- onde ele tem ainda muitos anos de pena a cumprir e poucas perspectivas de retomar a carreira musical, ou qualquer outra.   Continuação...