ESTREIA-"O Fantástico Sr. Raposo" prega audácia ante conformismo

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 14:54 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Um pai de família que tem sérios problemas profissionais por não conseguir abandonar sua "carreira de bandido". A esposa cobra mais a presença do marido em casa e quer que ele dê bons exemplos para o filho. Este, por sua vez, tem problemas de auto-estima e tenta a todo custo ganhar a atenção do pai, que está sempre mais interessado em roubar galinhas.

Essa poderia muito bem ser uma família de qualquer filme do diretor Wes Anderson ("Os Excêntricos Tenenbaums", "Expresso para Darjeeling") - não fosse o pequeno detalhe que eles são raposas. Ao contrário das aparências, este, realmente, é apenas um detalhe, pois os personagens pensam e agem como humanos em "O Fantástico Sr. Raposo".

O longa, que estreia em São Paulo e Rio apenas em cópias legendadas, depois de uma bem-sucedida passagem pela Mostra de Cinema de São Paulo, em outubro, tem no centro o Sr. Raposo (dublado pelo galã George Clooney), um sujeito de boa índole, mas com uma queda por galinhas roubadas - mais pelo desafio do que por necessidade alimentar. No entanto, quando a Sra. Raposo (Meryl Streep) diz que está grávida, eles decidem levar uma vida menos arriscada.

A ação pula para o futuro, quando o filhote do casal, Ash (Jason Schwartzman), é uma raposinha com problemas de relacionamento - especialmente com o pai. Essa que parece ser a questão central do conjunto da obra de Anderson reaparece com toda força nesta animação - feita na técnica stop-motion, com roteiro assinado pelo diretor e Noah Baumbach ("A Lula e a Baleia"), baseado no livro infantil "Raposas e Fazendeiros", de Roald Dahl, publicado pela primeira vez em 1970.

Apesar de muitos esforços, o pequeno Ash nunca consegue conquistar a atenção do Sr. Raposo. Tudo piora com a chegada do primo Kristofferson (Eric Anderson), que ganha facilmente carinho e atenção do patriarca, porque é o garoto de ouro, campeão em todos os esportes, inteligente, charmoso, praticamente perfeito - o que desperta um ciúme doentio no filhote da casa.

Uma das questões centrais do filme é o filho com sua jornada de autodescoberta e para conquistar de vez o respeito de seu pai. Famílias problemáticas rendem ao diretor o mote para seus longas, com personagens sempre excêntricos e um pouco neuróticos.

Embora muita coisa do filme não esteja presente no livro de Dahl - como a questão pai e filho e mais da metade da história - Anderson é bastante fiel ao espírito de audácia e anticonformismo que o escritor prega através de seus personagens, tanto aqui, e em outros livros, como "A Fantástica Fábrica de Chocolate". São histórias centradas em pessoas em busca de sua identidade, mesmo que outros fatores tentem impedir.

Sr. Raposo é um ladrão de galinhas nato - essa é sua essência - mas ele consome seu tempo escrevendo uma coluna de jornal que ninguém lê. Ao assumir sua natureza de ladrão de galinhas, ele é obrigado a pagar um preço por isso tanto em casa na rua. A mulher não gosta porque é perigoso. E um trio de fazendeiros, Boque (Robin Hurlstone), Bunco (Hugo Guinness) e Bino (Michael Gambon), também está cansado de seus prejuízos e prepara uma armadilha para pegar o Sr. Raposo.

Isso trará consequências não apenas para a família, mas também para toda a comunidade de animais da região. Anderson, então, foca o filme nas interações sociais dos personagens, seus lugares na sociedade e expectativas.   Continuação...