ESTREIA-Documentário resgata compositor de "Asa Branca"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 12:26 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Chamado de "doutor do baião" pelo parceiro Luiz Gonzaga, à sombra de quem parecia às vezes se esconder, o compositor Humberto Teixeira (1915-1979) é reapresentado ao público no documentário "O Homem que Engarrafava Nuvens", de Lírio Ferreira. Um título que lembra literatura de cordel e cai muito bem na cinebiografia de um artista cearense que dominava a poesia do baião.

O filme entra em cartaz nesta sexta-feira em sete capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Recife e Brasília.

Autor de mais de 400 músicas, inclusive a internacionalmente conhecida "Asa Branca", uma das muitas parcerias com Luiz Gonzaga, Teixeira renasce neste filme, que tem a ambição não só de resgatar sua memória artística como também a pessoal - componente que entra por conta de a produtora ser sua única filha, a atriz Denise Dummont ("A Era do Rádio").

Outra bem-vinda intenção deste documentário é delinear o que o compositor Gilberto Gil, um dos entrevistados, define muito bem como "dinastias musicais" do Brasil: o samba e o baião, sendo este último aqui o objeto de investigação.

Nesse sentido, foi fundamental para o êxito da proposta contar com um diretor com a sensibilidade apurada de Lírio Ferreira, que tem se mostrado tão talentoso na ficção ("Baile Perfumado") quanto no documentário ("Cartola - Música para os Olhos").

Longe de se dar por satisfeito com um mero registro da vida e da obra de Teixeira - que foi advogado, deputado e autor de uma lei sobre direitos autorais no Brasil -, Lírio viaja pelo Brasil profundo do Nordeste.

Nessa viagem, revela as ramificações do baião, matriz de vários gêneros, sua presença em festas tradicionais como o reisado, sua ligação com a sanfona, sua permanência na obra ou repertório de artistas atuais, inclusive no exterior - sendo o norte-americano David Byrne apenas um exemplo e não o único.

O diretor relaciona suas informações, entrevistas, relatos, números musicais e imagens, de maneira tão orgânica que nenhuma delas soa como digressão. Assim, quando se menciona a vaidade do vaqueiro nordestino com sua roupa de couro, isto entra como um detalhe, entre muitos, que determina o caráter e o imaginário do sertão. O que é fundamental para a compreensão do contexto em que nasce e se desenvolve o baião.

Trazidos do Nordeste para o Rio de Janeiro, o baião e Humberto Teixeira estavam destinados a correr o mundo. Seu sucesso, contando com a voz e a figura pop de Luiz Gonzaga, vestido como os vaqueiros sertanejos, era tanto que incomodou os dirigentes de gravadoras internacionais nos anos 1950. Pelo menos uma das composições da dupla Teixeira-Gonzaga, Juazeiro (1949) foi plagiada, numa gravação da cantora norte-americana Peggy Lee.   Continuação...