ESTREIA-"Um Segredo em Família" revê ocupação nazista na França

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 16:27 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - O mal-estar francês diante da ocupação alemã durante a 2a Guerra rendeu filmes memoráveis -- caso de "Lacombe Lucien" (1974) e "Adeus, Meninos" (1987), ambos de Louis Malle e indicados ao Oscar de filme estrangeiro.

"Um Segredo em Família", de Claude Miller ("A Pequena Lili"), adota uma perspectiva menos política e mais intimista, que não esconde as divisões dentro da própria comunidade judaica francesa -- e, assim, ganha mais força por essa honestidade. O filme estreia esta sexta-feira em São Paulo.

O enredo adapta o livro autobiográfico de Philippe Grimbert -- que faz uma ponta, como um passante, numa cena de rua. Ele se transfigura em François Grimbert (quando adulto, interpretado por Mathieu Amalric, de "O Escafandro e a Borboleta").

A história se desdobra em vários tempos, entre 1935 e 1985, com uma curiosa opção de fotografia em preto-e-branco para o período mais recente e colorido para os momentos do passado, revisitado em flashbacks. Uma escolha que acompanha a mudança de perspectiva diante da vida do pai de François, Maxime (Patrick Bruel, de "A Comédia do Poder").

Maxime está velho e acaba de perder o cão num acidente -- pelo qual ele se julga culpado. O episódio, aparentemente simples, embora triste, causa-lhe um choque e Maxime desaparece pela cidade. O filho é chamado para encontrá-lo.

À procura do pai, François relembra sua infância, quando fantasiava a existência de um irmão, que só ele via. Menino frágil fisicamente, o François de 7 anos (Valentin Vigourt) sentia a frustração por seu precário desempenho atlético nos olhos do pai, praticante assíduo da ginástica, assim como a mãe, Tania (Cécile de France, de "Um Lugar na Plateia"), nadadora exímia. No irmão-fantasma, François enxergava não só um atleta perfeito, como um opressor que o sufocava com suas fortes mãos, em seus pesadelos noturnos.

O encontro de um brinquedo escondido em sua casa provoca reações estranhas nos pais, que François só conseguirá esclarecer anos mais tarde. Agora adolescente (interpretado por Quentin Dubuis), o rapaz obtém uma nova versão sobre o passado familiar de sua vizinha, Louise (Julie Depardieu,de "A Culpa é do Fidel"). Através dela, fica sabendo que o casamento de seus pais esconde uma história incômoda, atravessada pela perseguição nazista aos judeus, como a família Grimbert, seus vizinhos, pais e amigos.

Nascida entre a fuga de Paris e a procura de um refúgio no campo, a paixão de Tania e Maxime teve um componente proibido que, aos poucos, François desvenda com a ajuda de Louise - testemunha ocular de um fato intrigante e doloroso envolvendo a primeira mulher de seu pai (Ludivine Sagnier, de "Uma Garota Dividida em Dois").

Desvendando aos poucos esta crônica familiar entrecortada de perdas e renascimentos, o diretor Claude Miller permite ao espectador experimentar vários sentimentos, sem perder de vista o quadro geral, político, da discriminação aos judeus naquele período. Por isso, o filme cresce e se torna envolvente.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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