ESTREIA-Documentário premiado traça perfil de Jards Macalé

quinta-feira, 4 de março de 2010 11:57 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Logo no início, o documentário "Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal" dá uma pista de que não vai ser uma homenagem convencional ao seu protagonista.

Um irritado Jards Macalé vocifera para o cineasta Marco Abujamra (um dos diretores): "Olha que eu posso processar vocês!" O motivo da bronca é que o cantor, músico e compositor carioca não tem certeza de que vai deixar-se retratar pelo filme. Quando o diretor pergunta qual é o seu medo, ele dispara: "O medo de que vocês desconstruam tudo o que construí - minha vida."

E é assim mesmo, bronqueado, irreverente e franco que Macalé vai sendo revelado no filme, um pequeno mapa da identidade deste músico que andou perto do Tropicalismo, mas não foi sócio do clube, esteve em todos os momentos e lugares onde isso era importante - como o show "Opinião", em 1964 - e resistiu à ditadura militar com sua arte. E também dono de uma obra como compositor que é, infelizmente, subavaliada.

Macalé não é um medalhão da música brasileira, assim como Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa - e essa é uma injustiça que o filme de Abujamra e João Pimentel, vencedor do Prêmio do Júri do Festival do Rio de 2008, procura reparar.

E assume esta causa sem esbarrar na condescendência que contamina tantos documentários, inclusive os que tem protagonistas dignos de tantos louvores, como é o caso deste.

Macalé aparece possuído de sua peculiar mistura de ira santa contra as mazelas do mundo, combinada a uma ironia peculiar.

Assim, o tijucano Macalé enumera a mistura de influências recebidas em casa, da mãe e da avó que cantavam Vicente Celestino, do pai que tocava acordeon e adorava ópera e também das batucadas de samba ouvidas ao pé dos morros do Rio.

Violonista, ele cruzou seu caminho nos bares da zona sul com Baden Powell. Brigou com Dori Caymmi, ficando sem falar com o cantor por três anos só porque mudou um acorde de sua composição, "Tarde Demais". Episódio que hoje os dois lembram rindo.

Não era essa a guerra de Macalé, nem de sua geração, que enfrentou a ditadura. Assim, Macalé junta-se a Bethânia no palco do histórico show "Opinião", ela substituindo Nara Leão, ele, Roberto Nascimento, no violão. Bethânia, aliás, morou alguns meses na casa de Macalé. Uma casa em ebulição onde, como ele lembra, Caetano, Torquato Neto, Capinam e Rogério Duprat discutiram a Tropicália.   Continuação...