ESTREIA-"Sonho Possível" ignora racismo para contar superação

quinta-feira, 18 de março de 2010 20:29 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Há apenas um motivo para gerar curiosidade para se ver "Um Sonho Possível": o longa rendeu à queridinha da América Sandra Bullock ("A Proposta") o Oscar de melhor atriz, tirando a estatueta de Meryl Streep ("Julia & Julia"), Helen Mirren ("The Last Station"), Carey Mulligan ("Educação") e Gabourey Sidibe ("Preciosa") - todas merecendo muito mais o prêmio, em filmes bem melhores.

O prêmio de Sandra talvez tenha mais a ver com boa vontade e política de boa vizinhança do que qualidades cinematográficas. Afinal, ela trabalha em Hollywood há mais de 20 anos e nunca havia ganhado um prêmio importante. Em 2010, no entanto, fez a proeza de ganhar não apenas o Oscar, mas também um Framboesa de Ouro (o ‘Oscar' de pior filme) por "Maluca Paixão" - lançado no Brasil diretamente em DVD.

Em "Um Sonho Possível", a atriz interpreta Leigh Anne Tuohy, uma decoradora texana mais preocupada com estampas de tapetes do que causas humanitárias. Isso até conhecer o afroamericano Michael Oher (Quinton Aaron, de "Rebobine, por Favor"), rapaz grandalhão que parece levar jeito para tornar-se um bom jogador de futebol americano e que, por isso, ganha uma bolsa de estudos numa escola classe A.

Mas ele não tem nem mesmo uma casa para morar e Leigh Anne, cujos filhos estudam na mesma escola, sensibiliza-se com isso, levando o rapaz para morar em sua casa, e fazer parte de sua família.

Seu marido, interpretado pelo cantor country Tim McGraw ("Surpresas do Amor"), se encanta com o altruísmo de sua mulher e embarca na causa, dando casa, comida, roupa lavada e uma picape para o rapaz. Ah, eles também o adotam legalmente, mostrando que essa família texana é caridosa demais.

Baseado numa história real, daquelas cheias de improbabilidades e muita inspiração, o filme é dirigido e roteirizado John Lee Hancock, a partir de um livro escrito por Michael Lewis.

Apesar da boa vontade excessiva de "Um Sonho Possível", pouca coisa - ou praticamente nada - se salva no filme. O diretor parece, na verdade, ter medo de colocar o dedo na ferida, de ir a fundo a temas que surgiriam naturalmente numa história como essa, como racismo no sul dos EUA e diferenças de classe. Pelo contrário.

Esse é um filme que quer agradar sem questionar ou fazer pensar, por isso tudo é muito arrumadinho e os problemas muito facilmente resolvidos. Oher, um garoto que literalmente tem apenas as roupas do corpo, não sofre nenhum tipo de discriminação na escola - nem pelas crianças ou pelos pais de alunos.

Com sua vontade de divertir, emocionar e conscientizar, "Um Sonho Possível" atira para todos os lados e, no final das contas, sua mensagem truncada é de que se cada um fizer a sua parte e for uma boa pessoa, este será um mundo melhor.   Continuação...