1 de Abril de 2010 / às 15:17 / 7 anos atrás

ESTREIA-"Chico Xavier" faz retrato superficial do famoso médium

SÃO PAULO (Reuters) - Santo ou demônio? Médium ou falsário? Essas foram algumas dúvidas que o médium brasileiro Chico Xavier levantou ao longo de sua vida. O longa “Chico Xavier”, que chega aos cinemas na sexta-feira, quando o médium completaria 100 anos, no entanto, não está muito preocupado com esse tipo de conflito.

Dirigido por Daniel Filho (“Se eu fosse você”), a partir de um roteiro de Marcos Bernstein (“Central do Brasil”), baseado por sua vez na biografia “As vidas de Chico Xavier”, de Marcel Souto Maior, o filme faz um retrato chapa-branca de seu protagonista -- que morreu em 2002.

O Chico Xavier do filme, interpretado pelo garoto estreante Matheus Costa, Ângelo Antonio (“2 Filhos de Francisco”) e Nelson Xavier (“Narradores de Javé”) nas diversas fases de sua vida, é um personagem sem muitos dilemas interiores -- há umas poucas vaidades, mas conflito mesmo, daqueles de consumir, não existe. Desde pequeno, ele parece aceitar tranquilamente seu dom e sua missão.

Morando com a madrinha (Giulia Gam, de “A Guerra dos Rocha”), o pequeno Chico é visto como um ser estranho por ela, que tem medo e fascinação na mesma medida pela mediunidade do menino. A única a compreendê-lo é a mãe morta (Letícia Sabatella, de “Não por acaso”), com quem ele trava longos diálogos.

Mais tarde, morando novamente com o pai (Luis Melo, “Encarnação do Demônio”), ele ganha outra cúmplice - a madrasta (Giovana Antonelli, de “Budapeste”). Com alguns saltos de roteiro, Chico chega à vida adulta, quando sua mediunidade se manifesta com mais força e ele começa a estudar a doutrina espírita.

Ainda morando em sua cidade natal, Pedro Lourenço (MG), recebe pessoas que pedem sua ajuda para se comunicar com parentes e amigos que já morreram. Nessa mesma época, Chico começa a receber as visitas de uma entidade que recebe o nome de Emmanuel (André Dias), que o acompanhará ao longo de sua vida.

A narrativa ficcional sobre o médium em “Chico Xavier” é entrecortada por trechos de uma participação verídica no programa de entrevistas “Pinga-Fogo”, na TV Tupi, na década de 1970. Nele, uma espécie de “Roda Viva” de sua época, Chico é sabatinado pelas mais diversas pessoas, que colocam em xeque seus poderes e crenças.

Essa entrevista, que interliga os episódios da vida do médium no filme, também serve como pretexto para amarrar outra linha narrativa do longa. Trata-se da história do casal Orlando (Tony Ramos, de “Tempos de Paz”) e Gloria (Christiane Torloni, de “Onde andará Dulce Veiga?”), cujo filho morreu há pouco em um acidente.

Ela está desesperada, enquanto o marido, que é o diretor do “Pinga-Fogo”, é cético. Essa parte do roteiro não se baseia numa história específica - embora sua conclusão venha de um fato real, envolvendo uma carta psicografada pelo médium. O casal, claramente, serve como identificação do público na tela. E, para não deixar ninguém de fora, um deles acredita em Chico Xavier e suas cartas, e o outro é o cético que zomba disso.

Enquanto personagem, Chico Xavier carece de conflitos e nuances. Ele aceita a sua missão muito facilmente, dizendo: “Eu sou como um carteiro, recebo cartas, e aí entrego”. Seu único porém é um pouco de vaidade - que causa alguns desentendimentos com Emmanuel, mas nada muito sério. Quando se muda para Uberaba, onde abre seu centro, Chico já é bastante conhecido e recebe visitas de pessoas de vários cantos do país em busca de comunicação com mortos.

Daniel Filho dirige com o profissionalismo que lhe é habitual, mas sem qualquer ambição mais cinematográfica. É um filme feito para as massas, que devem se emocionar em cada momento calculado para fazer chorar - especialmente as cenas que mostram a comunicação entre pais e filhos, em que um dos envolvidos já morreu.

Por outro lado, como bem mostram as imagens finais do longa, tiradas do programa “Pinga-Fogo” real, Chico Xavier era uma figura bem maior do que aquela mostrada pelo filme. Sem dúvida, não seria fácil captar num longa de ficção uma figura tão complexa como o médium. O que não se justifica são alguns momentos rasos do filme.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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