ESTREIA-"Dr. Parnassus" traz última atuação de Heath Ledger

quinta-feira, 6 de maio de 2010 12:37 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Único norte-americano na famosa trupe britânica de humoristas Monty Python e seu maior roteirista, além de diretor de filmes como "Monty Python e o Cálice Sagrado" (1975), entre vários outros, Terry Gilliam foi perseguido por uma inacreditável maré de azar na entrada dos anos 2000 -- quando a doença de seu ator principal, o francês Jean Rochefort, problemas financeiros e até enchentes aniquilaram um projeto com o qual ele sonha há anos, "The Man who Killed Don Quixote".

Por conta disso, ele ficou sete anos sem concluir um trabalho (tempo que passou entre "Medo e Delírio em Las Vegas", de 1998, e "Os Irmãos Grimm", de 1995). O azar voltou mais sinistro ainda durante as filmagens de "O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus", em que ocorreu a morte do ator Heath Ledger, em janeiro de 2008.

Não fosse a extrema generosidade dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, talvez o filme se tornasse outro projeto abortado de Gilliam. Felizmente, a parceria entre os três -- que substituíram Hedger nas cenas que faltava filmar -- e o criativo diretor concluiu o filme, que foi exibido no Festival de Cannes 2009, indicado a dois Oscar (direção de arte e figurino) e na sexta-feira estreia no Brasil.

"O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus" sintetiza o melhor da imaginação de Gilliam ao contar a história de uma excêntrica trupe mambembe, que percorre as ruas de Londres, liderada pelo Dr. Parnassus (Christopher Plummer). O misterioso guru convida os espectadores a entrarem numa espécie de espelho mágico, que proporciona a cada um uma viagem imaginária diferente. Alguns são lançados pelo espaço e encontram criaturas medonhas. Outros têm experiências mais prazerosas, em paisagens coloridas.

Os assistentes de Parnassus são sua filha adolescente, Valentina (Lily Cole), o jovem Anton (Andrew Garfield) e o pequenininho Percy (Verne Troyer, o Mini-me de "Austin Powers"). A trupe não consegue arrecadar mais do que alguns trocados a cada passagem e, não raro, tem que fugir de clientes insatisfeitos com o pavor sofrido do outro lado do espelho.

Um dia, os atores salvam a vida de Tony (Heath Ledger), que encontram dependurado pelo pescoço debaixo de uma das pontes de Londres -- uma imagem sinistra, ainda mais quando se lembra que Ledger morreu, embora não daquela maneira. O estranho está desmemoriado e passa a trabalhar no grupo, mostrando-se até eficiente como marqueteiro e na exploração de novas praças.

Se Tony tem um passado não muito edificante a esconder, pior ainda é o caso de Parnassus. Há uns mil anos -- literalmente -- ele não consegue resistir a apostar com Mr. Nick (o roqueiro Tom Waits), que é ninguém menos do que o Diabo em pessoa. Nick está chegando para cobrar o preço da última aposta de Parnassus para manter sua inacreditável longevidade: a filha dele, Valentina, que está prestes a completar 16 anos, data acertada para sua entrega a Nick. Só que ela nem desconfia disso.

Nick não é um cobrador apressado. Sabendo do fraco de Parnassus por apostas e de seu desespero para manter a filha, ele lhe proporciona uma nova chance de adiamento: propõe que o mago lhe arranje, no lugar da moça, cinco almas. E Parnassus vai à luta. Uma das melhores sequências está na passagem dos saltimbancos por um luxuoso shopping center, onde montam seu estande e proporcionam emoções disputadas a muito dinheiro por parte das frequentadoras do local.

Com a sua liberdade de imaginação e senso de ritmo, o filme caminha muito bem, levando o espectador numa viagem que tem seus momentos de suspense, diversão e até reflexão -- Gilliam é esperto demais para fazer alusões gratuitas ao bem e ao mal, ao mundo dos ricos e às fraquezas humanas. Fala de moralidade com um humanismo cínico, falando de coisas sérias com um sorrisinho, sem pretender fazer discursos, nem converter ninguém.   Continuação...

 
<p>Membros do elenco Christopher Plummer (esq) e Lily Cole durante exibi&ccedil;&atilde;o do filme "O Mundo Imagin&aacute;rio do Dr. Parnassus" em Hollywood. O filme estreia neste final de semana em circuito nacional. 02/11/200 REUTERS/Mario Anzuoni</p>