ESTREIA-"Antes que Mundo Acabe" retrata juventude com nostalgia

quinta-feira, 13 de maio de 2010 11:11 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Há uma sensação de nostalgia que percorre o filme "Antes que o Mundo Acabe". É uma melancolia de algo que está no limite, quase no fim. Isso não é por acaso. Afinal, o filme, que marca a estreia em longas de ficção da curtametragista Ana Luiza Azevedo, é sobre ritos de passagem, sobre jovens do interior gaúcho cuja adolescência está quase acabando e a passagem para a vida adulta é inevitável. O longa estreia na sexta-feira no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e nas próximas semanas entra em cartaz nos demais Estados.

O personagem central é Daniel (Pedro Tergolina), morador de uma pequena cidade gaúcha. A vida se divide entre as aulas no colégio, passeios de bicicleta com a namorada, Mim (Bianca Menti), e o melhor amigo, Lucas (Eduardo Cardoso). Não que o futuro não tenha muitas perspectivas. A questão é que ele não se deu muito ao trabalho de pensar no assunto. Mas, o futuro sempre chega. A cidade não oferece muitas opções para estudo ou trabalho e a mudança para Porto Alegre, mais cedo ou mais tarde, será inevitável.

Mas há algo, além disso, que incomoda Daniel: ele tem recebido cartas de um homem que compartilha seu nome (a irmã caçula até brinca dizendo que ele recebeu uma carta dele mesmo) e, a cada momento, está num lugar diferente do mundo. Aos poucos, o roteiro engenhoso, assinado pela diretora, Paulo Halm, Giba Assis Brasil e Jorge Furtado -- baseado num romance de Marcelo Carneiro da Cunha -- revela o que há por trás desse mistério, e um drama familiar começa a ganhar contornos.

Daniel, pai, interpretado por Eduardo Moreira ("O Ano em que meus Pais Saíram de Férias"), é um fotógrafo que há tempos caiu no mundo e nem conheceu o filho. A mãe, Elaine (Janaína Kremer, de "Cão Sem Dono"), e o padrasto, Antonio (Murilo Grossi, de "A Concepção"), cuidam do menino, com quem têm uma boa relação. A caçula, Maria Clara (Caroline Guedes), faz muito bem o papel de irmã mais nova, ou seja, existe para atormentar a vida do irmão e ser infernizada por ele.

Quando "Antes que o Mundo Acabe" chega ao impasse do triangulo amoroso, quando Lucas e Daniel se veem apaixonados por Mim, o longa flerta com "Jules e Jim - Uma Mulher para Dois", de François Truffaut -- especialmente numa cena numa feirinha quando o trio viaja para Porto Alegre. É uma situação desconfortável para os três personagens essa delicada trama amorosa porque tudo é novidade nessa fase da vida, e eles não sabem muito bem como lidar com seus sentimentos. Assim, todas as emoções, alegrias e dores ficam desproporcionais e mais intensas. Jovens não sofrem por amor, eles simplesmente estão a ponto de morrer quando são abandonados pela grande paixão de sua vida.

Mas há outro filme, uma espécie de primo desse de Ana Luiza, com que o longa dialoga muito bem. Trata-se de "A Última Sessão de Cinema", um filme pra lá de melancólico de Peter Bogdanovich, baseado no romance homônimo de Larry McMurtry e filmado num preto-e-branco nostálgico. Esse longa trata de dois amigos, numa pequena cidade dos Estados Unidos, que dividem as mesmas frustrações, dores e a paixão pela mesma garota.

Embora a faixa etária dos personagens do filme de Bogdanovich seja maior, a sensação de melancolia, de nostalgia antecipada por algo que está prestes a terminar é compartilhada por "Antes que o Mundo Acabe". São jovens em busca de seus lugares no mundo, sofrendo com as dores do crescimento, com a melancolia das perdas, das decepções amorosas. Ana Luiza capta muito bem a vida numa cidade pequena, a necessidade de abandonar tudo aquilo que era seu mundo até então, pois este ficou pequeno demais.

"Antes que o mundo acabe" ganhou alguns dos principais troféus no Festival de Paulínia do ano passado -- entre eles, prêmio da crítica, de direção e de fotografia (assinada por Jacob Solitrenick, de "Falsa Loura", "É Proibido Fumar"). A palavra "mundo" no título ganha, no filme, significados metafóricos. O mundo desses personagens é a adolescência, a juventude que, invariavelmente, um dia vai acabar.

Ao lado do filme de Laís Bodanzky ("As Melhores Coisas do Mundo"), o filme de Ana Luiza aborda uma faixa etária e se dirige a um público geralmente negligenciado pelo cinema brasileiro. Um fala da juventude urbana, o outro daquela da cidade pequena. Mas os dois mostram que jovens têm uma coisa em comum, independentemente do endereço: a vontade de ganhar o mundo.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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