ESTREIA-"Antes da Lua Cheia" trata arte como meio de resistência

quinta-feira, 10 de junho de 2010 11:55 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O colorido de "Antes da Lua Cheia", quarto filme do iraniano de origem curda Bahman Ghobadi, contrasta com a desolação da paisagem e das pessoas que passam pela tela ao longo desse road movie. O protagonista é um músico veterano que viaja do Irã para a região curda do Iraque, onde pretende dar um show.

O longa, que estreia apenas em São Paulo, é protagonizado por Mamo (Ismail Ghaffari), uma pequena celebridade em seu país, um músico curdo veterano que junta sua dezena de filhos num ônibus escolar e viaja de uma região a outra. Ele acredita que os rapazes, de várias idades, poderão ser os membros da banda. Mas também tem certeza de que necessita de um vocal feminino para completar a apresentação, mas isso é proibido no Iraque.

A jornada de Mamo, no ônibus guiado por um sujeito, dono de um galo que participa de brigas, tem momentos quase surreais. Mas a realidade, sempre cruel, sempre retorna para lembrar que o mundo não é belo, ao menos, não o tempo todo. Ainda assim, o protagonista encontra forças e muita energia para seguir firmemente em seus objetivos.

Encontra-se uma cantora, mas é preciso escondê-la, quando o ônibus é barrado por policiais. Na fronteira, é necessário mostrar os passaportes - e nem todos os membros da viagem têm o documento. Chegam a uma vila, que parece perdida no tempo e talvez tenha sido completamente abandonada pelos habitantes.

Uma única moradora, uma senhora bem idosa, explica o que aconteceu. Já outra mulher, chamada Niwemang (o título original do filme, que significa algo como "Lua Crescente"), tem uma voz que parece ter o poder de despertar os mortos. Ela é interpretada por Golshifteh Farahani, de "Procurando Elly".

Momentos como esses compõem o painel que Ghobadi traça da fronteira entre o Irã e Iraque atual. Embora o filme seja de 2006, pouco depois da queda de Saddam Hussein, em 2003, "Antes da Lua Cheia" não poderia ser mais atual.

Ao falar da arte, no caso a música, e do artista como elemento de resistência, o diretor faz lembrar de seu colega Jafar Panahi ("O Círculo") que ficou preso por mais de dois meses, acusado de fazer filmes contra o regime iraniano. Ele foi libertado no mês passado, depois de iniciar uma greve de fome e mobilizar protestos de artistas em todo o mundo.

Aqui, a resistência dos personagens acontece de forma sutil, ao resistir à lei ou encontrar formas de contorná-las.

Em alguns momentos, especialmente quando pessoas vivas se deitam em covas, "Antes da Lua Cheia" remete a "O Gosto da Cereja", de Abbas Kiarostami. Mas o cinema de Ghobadi dialoga com muitos de seus colegas, ao falar de vidas cuja liberdade de expressão, entre outras coisas, foi usurpada.   Continuação...