18 de Junho de 2010 / às 12:43 / 7 anos atrás

Único Nobel da Língua Portuguesa, Saramago morre aos 87 anos

<p>O vencedor do Pr&ecirc;mio Nobel da Literatura, Jos&eacute; Saramago, durante sua exposi&ccedil;&atilde;o "Consist&ecirc;ncia dos Sonhos" em Lisboa em 2008. Saramago morreu aos 87 anos nesta sexta-feira nas Ilhas Can&aacute;rias. 23/04/2008Nacho Doce</p>

Por Axel Bugge e Inmaculada Sanz

LISBOA/MADRI (Reuters) - O escritor português José Saramago, único do seu idioma a receber o Nobel de Literatura, morreu na sexta-feira aos 87 anos na sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias (Espanha). Ele deixa uma obra em que o realismo mágico se misturava à crítica política e à simpatia pelos oprimidos.

Militante de carteirinha - era filiado ao Partido Comunista de Portugal -, Saramago conheceu a aclamação do Prêmio Nobel, em 1998, mas também várias polêmicas no decorrer da sua longa carreira literária, por causa da abordagem crítica em relação à história portuguesa, ao conservadorismo e à religião.

A Fundação Saramago disse que ele morreu vítima de uma múltipla falência dos órgãos, após uma prolongada doença. O corpo do escritor está sendo velado em sua biblioteca, na casa de Lanzarote.

"Penso que se trata de uma grande perda para a cultura portuguesa", disse o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, a jornalistas. Saramago, afirmou ele, "deixou uma obra que orgulha o país ..., e o seu desaparecimento torna a nossa cultura mais pobre".

O presidente Aníbal Cavaco Silva disse que o escritor "será sempre uma figura de referência da nossa cultura".

Na sua última polêmica, no ano passado, Saramago irritou a Igreja Católica ao declarar, no lançamento do seu romance "Caim", que a Bíblia era um "manual de maus costumes" e um "catálogo do que há de pior na natureza humana".

Seus confrontos com as autoridades portuguesas eram frequentes também, o que talvez ajude a explicar por que parecia ser mais popular no exterior do que no seu país. "Ele talvez fosse mais conhecido fora do que em Portugal", disse o escritor Batista Bastos.

ATRITOS COM A IGREJA

Saramago partiu para um autoexílio em 1992, depois que o governo português da época vetou seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" na indicação oficial a um prêmio literário. Desde então ele vivia em Lanzarote, nas Canárias, território espanhol perto da costa africana.

Esse romance, que mostra Jesus como filho de José, e não de Deus, foi criticado pelo Vaticano, e Saramago acusou o governo português de censura.

Saramago só conheceu a fama tardiamente, mas é indiscutivelmente o mais conhecido escritor português contemporâneo, tendo sido traduzido em 25 línguas.

Em 2008, seu livro "Ensaio Sobre a Cegueira" foi transformado em um filme de sucesso, pelas mãos do brasileiro Fernando Meirelles, com Julianne Moore e Mark Ruffalo no elenco.

Saramago escreveu seu primeiro romance em 1947, mas em seguida esperou cerca de 35 anos até produzir suas primeiras obras aclamadas, como "Memorial do Convento", sobre a construção do convento de Mafra, nos arredores de Lisboa.

O cineasta Federico Fellini, amante de imagens exuberantes, considerava essa obra como um das mais interessantes que já lera. O enredo, sobre um casal de amantes que tenta fugir da Inquisição com uma máquina voadora, deu origem a uma ópera em estilo italiano, apresentada em 1990 no teatro La Scala, em Milão.

SIMPATIA PELOS OPRIMIDOS

Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, numa modesta família rural do Alentejo (sul de Portugal). Pobre demais para ir à universidade, trabalhou como metalúrgico, e atribuía sua simpatia pelos oprimidos a suas raízes humildes. Entre seus personagens havia camareiras, camponeses e vítimas de perseguições.

Certa vez, numa entrevista à Reuters, sacudiu a cabeça pesarosamente quando questionado sobre seu sucesso. "Não sou um gênio", disse, "só faço o meu trabalho."

O estilo lírico de Saramago, entremeando a fantasia, a história portuguesa e os ataques à repressão política e à pobreza, motivaram comparações com autores latino-americanos, como o colombiano Gabriel García Márquez, também Nobel de Literatura.

Mas Saramago rejeitava essas influências, e diziam que velhos mestres como o espanhol Miguel de Cervantes e o russo Nikolai Gogol o haviam impressionado mais.

"A literatura europeia não precisa emprestar o realismo mágico e a fantasia da América Latina. Qualquer país pode ter suas próprias raízes do realismo mágico."

Sua escrita pode ser considerada difícil, prescindindo da pontuação e eventualmente da gramática tradicionais. Mas ela tem raízes em um profundo sentimento associado à língua e ao seu ritmo.

A Fundação Nobel disse ao conceder-lhe o prêmio, em 1998, que Saramago, "com parábolas sustentadas pela imaginação, a compaixão e a ironia, continuamente nos permite mais uma vez apreender uma realidade elusiva".

Apesar das suas crenças comunistas - foi recebido pelo líder cubano Fidel Castro em vários eventos oficiais -, Saramago dizia que não escrevia para servir à ideologia ou ao ativismo político. Em 2003, ele fez críticas ao regime cubano por causa da prisão de dissidentes políticos.

Outras obras proeminentes incluem "A Jangada de Pedra" (1986), em que Portugal e Espanha se separam do resto da Europa, num comentário sobre o isolamento da região; "História do Cerco de Lisboa" (1989), ambientada da Lisboa medieval, e "A Caverna" (2000), uma alegoria sobre o sistema capitalista.

Saramago era casado com a jornalista espanhola Pilar del Río, que traduzia seus livros para o espanhol.

Reportagem adicional de Andrei Khalip

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