Sem Saramago mundo fica ainda mais "burro e cego", diz Meirelles

sexta-feira, 18 de junho de 2010 14:54 BRT
 

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O escritor português José Saramago, que faleceu aos 87 anos nesta sexta-feira, era um homem que dizia que a morte é "simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar", mas sua partida deixa o mundo "ainda mais cego", afirmou o diretor Fernando Meirelles, que levou para o cinema a obra "Ensaio sobre a Cegueira".

Prêmio Nobel em 1998, Saramago combinou realismo mágico e vigor em suas críticas políticas, levantando a voz inúmeras vezes contra as injustiças, o conservadorismo, a Igreja e os grandes poderes econômicos.

O escritor português combatia as religiões com fúria, alegando que "embaçam nossa visão", segundo Meirelles.

"Mesmo assim não consigo deixar de pensar que adoraria que neste momento ele estivesse tendo que dar o braço a torcer ao ser surpreendido por algum outro tipo de vida depois desta que teve por aqui", disse o diretor em nota.

"A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo escapar do clichê mas definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje."

Meirelles, que dirigiu "Ensaio sobre a Cegueira" (2008), com Julianne Moore e Mark Ruffalo, encontrou o escritor pela última vez em novembro do ano passado, mas o convívio mantinha-se intenso, pois está envolvido na co-produção de um documentário sobre os últimos anos de Saramago e sua mulher.

"O filme é comovente, de cortar os pulsos, vemos ali um homem brilhante que sabe que seu tempo está acabando e tem muita pena de morrer. O dia no qual ele pensava constantemente e que tentou adiar, chegou", disse Meirelles. O documentário "José e Pilar" tem direção do português Miguel Mendes.

Entre as obras do autor português, que começou a carreira como poeta, estão "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Ensaio sobre a Cegueira".

O autor, cuja saúde frágil provocava temores sobre sua vida há alguns anos, publicou no final de 2009 seu último romance "Caim", um olhar irônico sobre o Velho Testamento, alvo de críticas da Igreja Católica.

Segundo a Fundação Saramago, o escritor morreu de falência múltipla de órgãos, depois de uma prolongada doença. Ele era casado com a jornalista espanhola Pilar del Río e vivia em Lanzarote, nas Ilhas Canárias (Espanha).

(Por Maria Pia Palermo)

 
<p>Escritor portugu&ecirc;s Jos&eacute; Saramago morreu nesta 6a aos 87 anos. 03/03/2009 REUTERS/Susana Vera/Files</p>