5 de Agosto de 2010 / às 13:31 / 7 anos atrás

ESTREIA-Em "A Origem", Leonardo Di Caprio é um invasor de sonhos

SÃO PAULO (Reuters) - O cineasta inglês Christopher Nolan teria passado dez anos escrevendo o roteiro de "A Origem" -- o estranho título brasileiro para seu novo trabalho, "Inception", que vem liderando as bilheterias norte-americanas e já arrecadou mais de 193 milhões de dólares. Ao assistir a esta audaciosa ficção científica, é possível entender porque Nolan levou todo esse tempo.

A matéria-prima da história são os sonhos, não em si mesmos, mas como território para uma nova modalidade de crime -- o roubo de ideias de pessoas enquanto estão dormindo, quando ladrões invadem seus sonhos.

O maior especialista nesta audaciosa espionagem industrial do subconsciente é Dom Cobb (Leonardo Di Caprio), que trabalha armado com um arsenal que inclui drogas poderosas, equipamentos de última geração e um time de auxiliares de primeira. Entre eles, o primeiro-assistente, Arthur (Joseph Gordon-Levitt, de "500 Dias com Ela"), o designer de ambientes Nash (Lukas Haas), o químico Yusuf (Dileep Rao, de "Avatar") e o faz-tudo Eames (Tom Hardy).

Até agora, o trabalho básico de Dom foi extrair ideias, ganhando muito com isso no competitivo mundo corporativo. Até que aparece Saito (Ken Watanabe, de "Cartas de Iwo Jima"), um bilionário que o procura para fazer justamente o contrário: implantar uma ideia na cabeça de outro ricaço, o concorrente Robert Fischer (Cillian Murphy), levando-o a dividir o império que está para herdar do pai moribundo (Pete Postlethwaite).

A missão é arriscada, mas não impossível. E Dom tem uma razão especialíssima para aceitar -- Saito lhe oferece a possibilidade de eliminar o problema que o está impedindo de voltar aos EUA, para junto de seus filhos. Uma situação que tem a ver com o inquietante fantasma (ou é apenas memória?) de sua mulher, Mal (Marion Cotillard, de "Nine"), que atormenta todos os sonhos de Dom. Aliás, por conta de seu trabalho, ele só consegue sonhar com auxílio de seus aditivos químicos.

Na primeira metade do filme, Nolan empenha-se em definir os limites deste fascinante mundo imaginário, que funciona movido por leis próprias. Não é fácil seguir a narrativa, especialmente depois que se instalam os sonhos dentro dos sonhos necessários para completar a missão na mente de Fischer.

Atuando como uma espécie de guia do espectador, que fará algumas das perguntas que este poderia fazer, entra em cena Ariadne (Ellen Page, de "Juno"), a nova arquiteta que substitui Nash na idealização dos cenários dos sonhos -- o que é necessário para produzir ilusões que ajudem a enganar o sonhador que teve sua mente invadida. De Ariadne, como o nome sugere (lembrando a lenda grega de Teseu e do Minotauro), Dom espera que projete um labirinto muito especial, do qual só sua equipe consiga sair.

"A Origem" tem muita ação, perseguições, lutas, tiros, mas com direito a muitas situações surreais -- a cidade de Paris dobrando-se sobre si mesma, como se fosse de papelão, voos de carros e pessoas, desabamento de prédios em série, engolidos por água, e muito mais. A turma de efeitos especiais trabalhou bem, mas os dublês foram mais requisitados ainda, porque Nolan procura uma espécie de realismo dentro do sonho que lhe dê uma certa verossimilhança.

Ainda assim, dentro dos sonhos, vale tudo -- os colegas de Dom assumem disfarces e é possível escapar deles "morrendo". Mas também há o risco de cair num limbo e não voltar mais.

Pode-se dizer que a imaginação de Nolan foi longe e que criou um novo território na mitologia do cinema. Certamente, ele não inventou tudo isto do nada -- deve algo a "Matrix", dos irmãos Wachowski, de certo modo, a "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", de Michel Gondry, e também a seu próprio filme "Amnésia" (de 2000, inspirado num conto escrito por seu irmão, Jonathan Nolan).

Ninguém vai esperar, com o cinema atingindo 115 anos de idade, que uma ideia surja sem qualquer influência. O que não tira o mérito de Nolan de ter desenvolvido um universo movido por suas próprias leis e que poderá gerar novas sequências. O sucesso deste primeiro filme parece indicar neste caminho.

Se da para sentir falta de alguma coisa é de uma certa variação no cenário destes sonhos, talvez excessivamente calcado no universo masculino dos filmes de ação. Quem sabe em próximas investidas, se existerem, se possa dedicar mais tempo a imaginar alguns outros lados do subconsciente humano onde, como Freud tão bem revelou, escondem-se os medos e desejos mais secretos e inusitados. Um pouco da ambiguidade, erotismo e do especial sentido de humor dos espanhois, como Luis Buñuel e Pedro Almodóvar (como esquecer o segmento "O Amante Minguante" de "Fale com Ela ?") não faria nenhum mal.

Em tempo -- o título "A Origem" realmente não é bom. Melhor seria "Invasores de Sonhos", ou algo parecido. Nesse aspecto, a imaginação do distribuidor brasileiro não funcionou à altura da de Nolan.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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