ESTREIA-Marco Ricca estreia bem na direção com "Cabeça a Prêmio"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010 07:54 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - "Cabeça a Prêmio", que marca a estreia na direção de longas do ator e diretor de teatro Marco Ricca ("O Invasor"), é, até certo ponto, sobre famílias de contraventores. No caso, dois irmãos pecuaristas e também traficantes de drogas para aumentar a renda e continuarem bem de vida.

Miro (Fúlvio Stefanini, de "Caixa Dois") e Abílio (Otávio Müller, de "A mulher do meu amigo") não chegam a desfrutar do poder político e monetário dos Corleone de "O Poderoso Chefão", mas também não são pé de chinelo, como aquela família que rouba carros em "Nossa Vida Não Cabe num Opala".

O roteiro é assinado pelo próprio diretor e Felipe Braga e contou com a colaboração do escritor Marçal Aquino ("O Invasor", "Matadores"), autor do livro homônimo adaptado no filme. A narrativa de "Cabeça a Prêmio" move-se dentro de um grupo de personagens que cercam essa família. Como figuras de ficção, alguns são mais desenvolvidos, outros não levantam o voo prometido na primeira metade -- como é o caso do matador Brito, vivido por Eduardo Moscovis, cuja história torna-se acessória na trama.

Isto vem de uma mudança de foco da obra original para a adaptação cinematográfica. Há duas narrativas. A primeira se concentra em Brito e seu colega de profissão, Albano (Cássio Gabus Mendes, de "Chico Xavier"), e a segunda em Elaine (Alice Braga) e o piloto de avião Denis (o uruguaio Daniel Hendler, de "As Leis de Família"). Ela é a filha rebelde e mimada de Miro, que vive uma paixão tórrida com o funcionário do pai, cuja vida passa a correr risco à medida em que o romance do casal ganha força.

Denis é a testemunha que pode colocar o pai e o tio de Elaine na cadeia. Por isso, a moça tem um dilema moral forte e torna-se a personagem mais interessante. A certa altura, seu namorado diz que tudo dará certo para eles, ao que ela comenta: "Para tudo dar certo pra gente, é preciso que tudo dê errado para o meu pai".

"Cabeça a Prêmio" trabalha em cima desses personagens humanamente contraditórios que cometem crimes, mas também atos de bondade. O próprio Brito, um matador de poucas palavras e emoções contidas, explode de amor que se transforma em ciúme quando conhece uma dona de bar (Via Negromonte, de "Chico Xavier"). A melhor definição para estes pessoas vem de seu colega Albano: "A gente é bom. Só que está do lado errado". Quando um grande conflito interno como esse fica evidente, é que o filme de Ricca ganha força.

A narrativa passa-se numa região fronteiriça entre Brasil, Bolívia e Paraguai, o que funciona como uma metáfora para os personagens de "Cabeça a Prêmio", que transitam sem muitos escrúpulos entre os dois lados da lei ou de sua moral pessoal.

Ator experiente de cinema, teatro e televisão (atualmente esta no telinha na novela "Ti-ti-ti"), Ricca estreia na direção de cinema com segurança e boa condução dos atores e da narrativa. Alguns problemas, como o distanciamento emocional e a falta de desenvolvimento de algumas tramas, não diminuem a qualidade deste trabalho promissor.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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