ESTREIA-"Baaria" acompanha 40 anos de história da Itália

quinta-feira, 16 de setembro de 2010 15:19 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - No novo filme do italiano Giuseppe Tornatore ("Cinema Paradiso"), "Baaria - A Porta do Vento", estão todas as assinaturas, manias e clichês do diretor -- para o bem e para o mal.

Apesar das quase três horas de duração, o filme parece apressado, soa como uma versão condensada daquelas novelas italianas de Benedito Rui Barbosa. A narrativa transcorre com atropelos, sem permitir um tempo orgânico para o desenvolvimento dos episódios.

O filme, roteirizado pelo diretor, traz traços autobiográficos e acompanha algumas décadas na vida de um personagem, Peppino Torrenueva, tendo como pano-de-fundo conturbações políticas e sociais na Itália.

Nas ruas da cidade de Bagheria -- chamada de Baaria no dialeto local -- o "bambino" brinca com coleguinhas. A primeira meia-hora de filme, serve mais para apresentar a cidade, seu folclore local, suas nuances e esquisitices.

Quando "Baaria" acompanha a adolescência de Peppino, Tornatore começa a colocar a trama no trilho e acompanha o despertar amoroso do personagem e a sua filiação ao partido comunista. Agora, interpretado por Francesco Scianna, o personagem se apaixona por Mannina (Margareth Made), com quem viverá por décadas, depois de alguns contratempos que atrapalham o romance, mas fortalecem a relação.

Ao acompanhar os altos e baixos na vida da família de Peppino, "Baaria" tenta fazer uma crônica da vida italiana ao longo de quatro décadas. A cidade, sua arquitetura e lendas servem como um marco, resistem ao tempo, continuam de pé, mas são arranhadas pelos anos que passam.

Assistir a "Baaria" é como passear com uma Ferrari de último modelo por uma estrada esburacada. A viagem é árdua, repleta de solavancos, mas ninguém pode reclamar de algumas vantagens. Há bons momentos no filme, cenas de extrema poesia, mas os cacoetes de Tornatore, música e sentimentalismo excessivos, são as crateras responsáveis pelos maiores solavancos da viagem.

A trilha sonora do veterano Ennio Morricone é quase onipresente, indicando, quase impondo, as emoções que devem ser sentidas em cada cena. Tornatore transforma em melodrama excessivo todos os episódios da vida de Peppino, tanto os políticos quanto os pessoais. Há alguma graça nisso, mas é pouca e altamente premeditada, quase um gosto em fazer rir pelo estranho.

Atores italianos do momento fazem pontas minúsculas e quase irreconhecíveis que se perdem se o público piscar os olhos -- caso de Monica Bellucci e Raoul Bova.   Continuação...