ESTREIA-Novo "Wall Street" atualiza especulação econômica

quinta-feira, 23 de setembro de 2010 08:28 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Enquanto a maioria dos filmes hollywoodianos parece insistir que os anos de 1980 ainda não acabaram, "Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme" caminha exatamente na direção contrária.

Logo na primeira cena, estabelece que aquela década é coisa do passado. O protagonista do primeiro filme, Gordon Gekko (Michael Douglas), sai da prisão e recebe seus pertences - entre eles, um gigantesco telefone sem fio, um verdadeiro monstro comparado aos celulares minúsculos da atualidade.

É assim que o diretor Oliver Stone estabelece o tom do seu novo filme, que estreia em circuito nacional. Não estamos mais na era yuppie, época retratada no primeiro "Wall Street - Poder e Cobiça" (1987) e também de forma sarcástica em "O Psicopata Americano" (2000). O novo século trouxe não apenas novas tecnologias, mas novos valores morais e econômicos.

Gekko, mais do que um exemplo a não ser seguido, com seu lema "ganância é bom", definiu uma geração que, na superfície, se transformou na década de 1990, mas no fundo manteve a mesma moral dúbia e egoísta.

No primeiro filme, Stone penetrou num mundo pouco conhecido, e, por isso mesmo exótico. Termos, siglas e operações pareciam fazer parte de uma língua de outro planeta. Agora, mais de 20 anos e crises econômicas mundiais depois, nada daquilo é misterioso. Neste cenário, entra o termo "risco moral", que, associado com os altos e baixos da economia, pode trazer resultados desastrosos para investidores.

No roteiro assinado por Allan Loeb ("Coincidências do Amor") e Stephen Schiff ("Crime Verdadeiro"), a crise econômica de 2008 substitui a Segunda-feira Negra de outubro de 1987. Este se torna, assim, um dos primeiros filmes a ter a grande quebra dos mercados como tema. Não apenas isso: Stone faz questão de apontar dedos para os responsáveis.

Ao sair da prisão, Gekko torna-se uma espécie de palestrante motivacional, excursionando por escolas e vendendo sua biografia. Jacob (Shia LaBeouf, da série "Transformers") é um corretor que poderia transformar-se em Gekko dentro de duas décadas. Mas o rapaz tem outra visão sobre o mundo e a especulação, especialmente depois que seu protetor, Zabel (Frank Langella, de "Frost/Nixon"), se mata quando circulam rumores sobre uma dívida de milhões. A empresa dele acaba comprada por Bretton (Josh Brolin, que interpretou George W. Bush em "W.", também de Stone) - e este se torna o vilão do filme.

Jacob é namorado de Winnie (Carey Mulligan, de "Educação"), filha de Gekko que rompeu os laços com o pai negligente depois do suicídio do irmão. A trama familiar tem um peso tão importante quanto a econômica em "Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme". Talvez seja nesses momentos que a história perde um pouco da sua força, ao retratar a transformação - um tanto forçada - de Gekko.

Stone sempre foi um diretor capaz de extrair entretenimento a partir de acontecimentos econômicos e sociais - especialmente em suas cinebiografias de presidentes americanos. Mas continua apegado a cacoetes cinematográficos desnecessários, como cortes e imagens múltiplas. Por outro lado, a fotografia realista de Rodrigo Prieto ("Abraços Partidos") e várias canções de David Byrne (algumas em parceria com Brian Eno) conseguem, em vários momentos, impor-se sobre estes problemas de direção.   Continuação...

 
<p>Atores Michael Douglas e Shia LaBeouf (esq) na estreia do flime "Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme" em Nova York. 20/09/2010 for REUTERS/Lucas Jackson</p>