ESTREIA-"London River" explora convivência diante do terrorismo

quinta-feira, 30 de setembro de 2010 08:12 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - "London River - Destinos Cruzados", de Rachid Bouchareb ("Dias de Glória"), que estreia na sexta-feira em São Paulo, é um drama sobre pais em busca de filhos, perdas e encontros. Mas, acima de tudo, mostra uma história sobre uma Inglaterra multirracial que busca superar preconceitos e medos para um presente mais pacífico.

O filme se passa em julho de 2005, na época em que Londres sofreu atentados terroristas. Acompanha os personagens por alguns dias e os desdobramentos do fato que muda drasticamente suas vidas. Brenda Blethyn ("Orgulho e Preconceito") é Elisabeth, fazendeira que vive numa região rural da Inglaterra e não consegue falar com a filha, moradora em Londres, o que a preocupa depois da explosão de um ônibus na capital do país.

Depois de vários recados no celular da garota, a mãe vai para Londres. Para lá também se dirige Ousmane (Sotigui Kouyaté, de "Coisas Belas e Sujas"), em busca de seu filho, de quem há muito não tem notícias. Sua situação é mais delicada, já que o pai abandonou o rapaz quando ainda era criança e mantém algum contato com a mãe do jovem, que mora na África. Expressando-se apenas em francês, Ousmane depende da ajuda de estranhos para a busca do filho.

Apesar de ser claro desde o começo que os caminhos de Elisabeth e Ousmane vão se cruzar, o roteiro, assinado por Bouchareb, Olivier Lorelle e Zoe Galeron, nunca cai em obviedades. O casal de filhos perdidos tinha uma ligação, que os dois pais vão desvendando aos poucos - e isso leva a uma coincidência de suas buscas.

A primeira reação de Elisabeth é o medo, a acusação. Ela crê que o próprio Ousmane tenha culpa no desaparecimento de sua filha. Hospedada no apartamento da garota, que, para sua surpresa, fica num bairro muçulmano, ela descobre outros fatos que não sabia sobre a filha, Jane. Alguns deles têm a ver com o filho de Ousmane, Ali.

Quando Bouchareb propõe um diálogo amigável entre os dois personagens, sugere que esse mesmo entendimento se faz necessário para a Inglaterra multiétnica e contemporânea. O medo de Elisabeth se converte em esperança e amizade com Ousmane.

Ganhador do prêmio de ator no Festival de Berlim do ano passado, o ator mali Kouyaté, que morreu no último mês de abril, ficou conhecido especialmente por seu trabalho com o inglês Peter Brook. No filme, revela-se uma presença hipnótica. Muito alto e magro, com uma calma que parece transmitir sabedoria e compaixão, o personagem é quem dá o apoio necessário para Elisabeth em sua jornada. Mas é ele quem talvez sofra mais, pelo temor de que seu filho possa ser um terrorista. O destino de Ali e Jane é uma incógnita até quase a cena final.

Bouchareb dirige com competência e precisão, deixando, sabiamente, boa parte do trabalho nas mãos da dupla de seus dois grandes atores. Se em seu filme anterior, "Dias de Glória" (2006), ele olhou para uma das feridas abertas da França (os argelinos que lutaram na 2a Guerra Mundial), aqui ele investiga uma outra que diz respeito ao mundo contemporâneo: a questão da convivência e aceitação mútua, independente da nacionalidade, de credos ou opções políticas.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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