ESTREIA-Ana Paula Arósio é lésbica amargurada em "Como Esquecer"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 08:22 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - A dor da perda da pessoa amada está ao centro de "Como Esquecer", um drama de Malu de Martino ("Mulheres do Brasil"). Como protagonista, está a ex-modelo Ana Paula Arósio, interpretando a professora universitária Júlia, cuja separação da ex-companheira Antonia causa uma grande ruptura em sua vida.

"Como Esquecer" é um filme sobre deixar de lado velhas rotinas para abraçar o novo, seja ele um amor, uma casa ou um grupo de amigos. Sem saber lidar com a dor, Júlia se fecha em si mesma e passa evitar as pessoas, tem dificuldades para preparar suas aulas e não poupa ninguém de seu mau humor e ódio do mundo.

Seu melhor amigo, Hugo (Murilo Rosa, de "Orquestra dos Meninos"), é quem insiste em tirá-la de casa, levar para passear, tentar fazê-la superar a separação. Ele diz que ela o ajudou quando perdeu seu companheiro, por isso sente-se na obrigação de retribuir. Mas Júlia parece confortável demais em sua depressão, em sua raiva. As mudanças apenas começam quando ele sugere que os dois passem a dividir uma casa com Lisa (Natália Lage, de "O Homem do Ano"), de quem a professora parece não gostar muito.

Na universidade, Júlia é assediada por Carmem Lygia (Bianca Comparato, de "Anjos do Sol"), aluna ambígua que, de tanto dar em cima da professora, torna-se inconveniente. A rotina da professora muda mais com a chegada de Helena (Arieta Correa), prima de Lisa. As duas batem de frente, pois cada uma encara a vida de uma forma. Se para uma viver é um fardo pesado, para a outra, é pura diversão.

Se por um lado há uma boa dose de previsibilidade na trama de "Como Esquecer", por outro, a sólida interpretação de Ana Paula traz um vigor muito bem-vindo ao filme. Júlia é uma personagem chata, beira o insuportável, mas a atriz é capaz de trazer à tona sua essência humana e fazer com que o público simpatize e torça por ela, ao menos, o mínimo necessário.

Em seu segundo trabalho na direção de longas, Malu de Martino mostra um amadurecimento, após a estreia no problemático "Mulheres do Brasil" (2006). O roteiro de "Como Esquecer" é baseado em livro de Myriam Campello e assinado por diversos colaboradores, entre eles, a atriz Silvia Lourenço. Muitos chefs trabalhando num prato tão trivial não é um bom sinal. E isso fica claro com uma narrativa irregular e diálogos e personagens desnecessários.

Discussões literárias - que vão de Virginia Woolf a Cassandra Rios - abordam uma suposta 'literatura gay', como se o mérito dessas escritoras se limitasse à criação de personagens homossexuais. É um pequeno problema em "Como Esquecer" e um grande indício de que o filme parece não ter muita propriedade do quer falar, ou como falar, mantendo-se, assim, na superfície dos seus temas.

Talvez seja proposital que a diretora trabalhe os personagens em forma de clichês - a lésbica mal-humorada, o gay cheio de trejeitos - mas isso, no fundo, pesa contra o filme, por contentar-se em torná-los tão unidimensionais. Apenas Ana Paula parece capaz de superar essa limitação, fazendo uma Júlia que parece uma pessoa de verdade.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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