ESTREIA-Em "Cyrus", rapaz inferniza a vida do namorado da mãe

quinta-feira, 4 de novembro de 2010 07:59 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Aos 21 anos, Cyrus (Jonah Hill, de "Ressaca de Amor") mora com sua mãe solteira, Molly (Marisa Tomei, de "O Lutador"). Eles têm uma relação muito próxima - talvez até demais. Isso acaba atrapalhando bastante John (John C. Reilly, de "Quase Irmãos"), quando ele conhece a mulher e os dois iniciam um romance.

A comédia "Cyrus" não é bem sobre como o cara vai ganhar Molly, mas sobre como ele vai fazê-la se preocupar menos com o filho e viver a vida dela. O rapaz, que pensa e age como um adolescente mimado, tem seus artifícios, se faz de bonzinho e amigo de John, mas, no fundo, usa de um jogo sujo para se livrar da "concorrência".

Escrito e dirigido pela dupla Jay e Mark Duplass, o que há de mais curioso em "Cyrus" é a forma como eles trabalham essa comédia de subtexto edipiano. Eles poderiam cair numa comédia rasgada, cheia de baixarias, ou para um drama pesado. No entanto, os diretores ficam no meio-termo e fazem um estudo sobre esse trio de personagens e a forma como essa estranha relação se desdobra na vida deles.

John é inseguro em tudo e muito carente. Anos depois da separação, ainda é amigo de sua ex-mulher, Jamie (Catherine Keener, de "Onde Vivem os Monstros"), e a transforma em sua confessora, obrigada a ouvir todas as suas reclamações e dúvidas.

Cyrus mais parece um bebê crescido, que usa sua imaturidade e a superproteção da mãe como desculpa para o seu comportamento egoísta. Sujeito grande e bonachão, ele é capaz de se transformar na criança carente que acredita ser, com medo de sair para o mundo e enfrentar a vida. Por isso, é mais fácil e seguro estar sempre atrelado à sua mãe.

Molly, por sua vez, deve ter algum sentimento de culpa muito grande para aceitar o comportamento do filho e ignorar a manipulação emocional óbvia que ele usa com ela. Marisa Tomei, uma espécie de rainha dos filmes independentes, é capaz de interpretar aqui tanto a frágil mãe, quanto a predadora sexual, o que coloca o personagem de Reilly numa dúvida grande: até onde ela está apaixonada por ele? Até onde vai essa proximidade com Cyrus?

As respostas para essas e outras perguntas vão acontecendo ao longo de "Cyrus", que, para o bem ou para o mal, recorre a vários dos cacoetes de filmes independentes norte-americanos. Ainda assim, tem muito a oferecer - especialmente por conta de seu trio de atores, que estão na medida certa de seus personagens, muitas vezes bastante estranhos, ainda assim, muito humanos.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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