ESTREIA-Em "Você Vai Conhecer...", Allen lida com expectativas

quinta-feira, 25 de novembro de 2010 08:26 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Como o título bem indica, "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos", novo trabalho de Woody Allen, é um filme sobre expectativas e, quase por tabela, frustrações. A frase, como qualquer um pode suspeitar, vem das previsões de uma vidente, interpretada por Pauline Collins, que para muitos será lembrada eternamente como a personagem-título de "Shirley Valentine".

Parece que para Allen, como nota uma personagem, a clarividência, nos últimos anos, substitui a terapia, com os mesmos resultados - além de ser mais barato. Ao longo do filme, os personagens parecem estar em busca de placebos que vão dar a falsa sensação de cura para seus medos, ansiedades e inseguranças - mas que, no fundo, jamais irão solucionar seus problemas.

Helena (Gemma Jones) é a cliente preferida da vidente. Suas dúvidas são banais e é bem fácil descobrir o que ela realmente quer ouvir. Seu marido, Alfie (Anthony Hopkins), a abandonou e está de namoro com uma starlet chamada Charmaine (Lucy Punch), cujo nome é motivo de piada para Sally (Naomi Watts), a filha do casal.

Os personagens se ligam por uma teia de expectativas e ansiedades - mais do que laços de família. Sally é casada com Roy (Josh Brolin) escritor de um livro só que foi sucesso, mas incapaz de emplacar o segundo. Ele aguarda a qualquer momento a ligação de seu editor parabenizando-o por sua nova obra-prima, que ele entregou há algum tempo. Enquanto isso, se distrai observando a vizinha do prédio em frente, Dia (Freida Pinto), por quem desenvolve uma paixonite.

A infidelidade conjugal - tema caro ao cinema de Allen - é o que espelha os casais Sally/Roy e Helena/Alfie. Sally começa a trabalhar numa galeria de arte, comandada por Greg (Antonio Banderas). Por ele ser mais refinado, culto e rico que seu marido, ela se sente atraída por ele - ou talvez seja simplesmente porque ele seja bem sucedido. Ou nem é nada disso - pode ser puro desejo carnal mesmo. Mas isso pouco importa, o que conta é como ela vai se entregando a esse sentimento e não percebe seu casamento se esvaindo. Helena também tenta esquecer o ex-marido e procura um novo amor.

Como alguns de seus últimos trabalhos - "Match Point", "O sonho de Cassandra" -, Allen filma na Inglaterra, onde ele tem conseguido dinheiro para bancar seus trabalhos. E, apesar de povoada por ingleses, um americano (Roy) e um espanhol (Greg), "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos" é universal em sua abordagem do ser humano, sempre frustrando e ambicionando mais.

Aqui, alguns personagens alcançam seus objetivos - por meios idôneos ou não. O sentimento de culpa, no entanto, cai sobre eles à medida em que suas armações podem ser desvendadas e expor a farsa que são. Se Allen não coloca na tela o crime e o castigo, ao contrário de "Match Point" (uma espécie de "crime sem castigo"), aqui parece que as infrações caminham rumo a punição, mas a história acaba antes, deixando conclusões em aberto.

Muito já se falou sobre "Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos" ser um filme menor de Allen. Mas por que esperar que ele faça algo do porte de "Hannah e Suas Irmãs" ou "Interiores"? Allen se reinventa a cada trabalho, muito embora pareça estar contando sempre a mesma história de insatisfações e frustrações. Aqui, ele recicla tudo o que já apresentou em seu cinema, e, ainda assim, consegue um resultado bem acima do satisfatório.

Logo no início do filme, um narrador cita Shakespeare e nos lembra que "A vida é uma história contada por um louco, cheia de som e fúria, significando nada". Por mais de quatro décadas Allen é esse louco que imagens, diálogos, jazz e alguma graça nos lembra que não vale a pena buscar significados profundos na vida - o melhor é deixar que ela nos leve.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
<p>Noami Watts e o diretor Woody Allen no Festival de Cannes, promovendo o filme ""Voc&ecirc; Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos". 15/05/2010 REUTERS/Christian Hartmann/Arquivo</p>