ESTREIA-O impacto de "Abutres" faz Argentina mudar leis do país

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010 14:51 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Num tempo em que o cinema parece se restringir cada vez mais a histórias superficiais e explosões, o argentino Pablo Trapero ("Leonera") transforma "Abutres" em um thriller de relevância social.

O filme, além de fazer enorme sucesso em seu país, levou o Congresso argentino a discutir mudanças na legislação de seguros para acidentes automotivos. Não é para menos, afinal o filme denuncia abertamente uma máfia que se tornou famosa ganhando dinheiro de seguros por acidentes não tão acidentais assim.

Em "Abutres", que estreia na sexta-feira em São Paulo e no Rio, Ricardo Darín ("O segredo dos seus olhos") é um advogado cuja licença foi cassada e, agora, trabalha em uma firma decadente cuidando de casos estranhos envolvendo acidentados e seguradoras.

Aos poucos, o roteiro, assinado por Trapero e outros três escritores, revela a real função do personagem, Sosa: dar assistência a pessoas que dão golpes em seguradoras.

Iria tudo bem, se o caminho dele não cruzasse com Luján (Martina Gusman), uma paramédica que socorre vítimas de acidentes automobilísticos. Eles se encontram por acaso, durante uma ocorrência na qual ele diz ser amigo da vítima. À medida em que os dois personagens se envolvem amorosamente, surge um dilema moral para Sosa. Ele ajuda pessoas que colocam suas vidas em risco, enquanto ela faz exatamente o contrário.

Se numa primeira parte "Abutres" segue como um drama, o ritmo de suspense ganha contornos a partir da disputa entre advogados e o embate entre Sosa e Juján, quando ela desconfia que seu novo namorado não é lá muito idôneo.

É uma aposta corajosa de Darín e Trapero, trazendo o ator para encarnar um tipo diferente daquele com que o público está acostumado. Ele não é o herói - nem tampouco o vilão -, mas uma espécie de anti-herói trágico e atormentado, que começa a ser consumido pela culpa.

O amor, que o libertaria, se torna mais um peso. A personagem de Martina - mulher do diretor e também produtora do filme - é repleta de nuances. Apesar de apaixonada, não abre mão de suas convicções, mesmo trabalhando em condições quase sub-humanas.

Por mais que a trama e os personagens de "Abutres" sejam interessantes, há um belíssimo trabalho de direção de Trapero, que em seu sexto longa de ficção se confirma - ao lado de Lucrecia Martel ("O Pântano") - como um dos nomes mais importantes do novo cinema argentino.   Continuação...