2 de Dezembro de 2010 / às 16:53 / 7 anos atrás

ESTREIA-O impacto de "Abutres" faz Argentina mudar leis do país

SÃO PAULO (Reuters) - Num tempo em que o cinema parece se restringir cada vez mais a histórias superficiais e explosões, o argentino Pablo Trapero ("Leonera") transforma "Abutres" em um thriller de relevância social.

O filme, além de fazer enorme sucesso em seu país, levou o Congresso argentino a discutir mudanças na legislação de seguros para acidentes automotivos. Não é para menos, afinal o filme denuncia abertamente uma máfia que se tornou famosa ganhando dinheiro de seguros por acidentes não tão acidentais assim.

Em "Abutres", que estreia na sexta-feira em São Paulo e no Rio, Ricardo Darín ("O segredo dos seus olhos") é um advogado cuja licença foi cassada e, agora, trabalha em uma firma decadente cuidando de casos estranhos envolvendo acidentados e seguradoras.

Aos poucos, o roteiro, assinado por Trapero e outros três escritores, revela a real função do personagem, Sosa: dar assistência a pessoas que dão golpes em seguradoras.

Iria tudo bem, se o caminho dele não cruzasse com Luján (Martina Gusman), uma paramédica que socorre vítimas de acidentes automobilísticos. Eles se encontram por acaso, durante uma ocorrência na qual ele diz ser amigo da vítima. À medida em que os dois personagens se envolvem amorosamente, surge um dilema moral para Sosa. Ele ajuda pessoas que colocam suas vidas em risco, enquanto ela faz exatamente o contrário.

Se numa primeira parte "Abutres" segue como um drama, o ritmo de suspense ganha contornos a partir da disputa entre advogados e o embate entre Sosa e Juján, quando ela desconfia que seu novo namorado não é lá muito idôneo.

É uma aposta corajosa de Darín e Trapero, trazendo o ator para encarnar um tipo diferente daquele com que o público está acostumado. Ele não é o herói - nem tampouco o vilão -, mas uma espécie de anti-herói trágico e atormentado, que começa a ser consumido pela culpa.

O amor, que o libertaria, se torna mais um peso. A personagem de Martina - mulher do diretor e também produtora do filme - é repleta de nuances. Apesar de apaixonada, não abre mão de suas convicções, mesmo trabalhando em condições quase sub-humanas.

Por mais que a trama e os personagens de "Abutres" sejam interessantes, há um belíssimo trabalho de direção de Trapero, que em seu sexto longa de ficção se confirma - ao lado de Lucrecia Martel ("O Pântano") - como um dos nomes mais importantes do novo cinema argentino.

Desde "Mundo Grua" (1999), o cineasta estabelece um estilo de filmagem inconfundível, sem enfeitar a imagem ou os movimentos, um cinema quase áspero. Aqui, há diversos planos sem interrupção, todos em momentos-chaves, o que contribui para aumentar a tensão natural da narrativa.

"Abutres" parece uma espécie de primo latino de "Crash - Estranhos Prazeres", de David Cronenberg, lançado em 1996 e que provocou protestos na Argentina por parte da "Associação das Vítimas de Acidentes de Trânsito", que conseguiu tirá-lo de cartaz em Buenos Aires.

Aqui, no entanto, ao contrário do longa canadense baseado em J. G. Ballard, as batidas de carro não são formas de fetiche, mas praticamente ferramentas para movimentação, de forma ilícita, da economia.

Exibido em competição no Festival de Cannes, em maio, e escolhido para representar a Argentina na disputa por uma vaga na categoria de Oscar em melhor língua estrangeira, "Abutres" é um filme tão perturbador quanto comovente. É assustador acompanhar até onde as pessoas se auto-abusam em nome do dinheiro. Alguns personagens se submetem a degradações físicas, outros, a morais - e esses são os mais assustadores.

(Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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