ESTREIA-"O Concerto" cria trama política com clima emotivo

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010 08:30 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Conhecido especialmente pelo premiado "Trem da Vida" (1998), o diretor e roteirista romeno Radu Mihaileanu compõe um melodrama com toques cômicos em "O Concerto" -- que concorre ao Globo de Ouro na categoria filme em língua estrangeira. O filme estreia em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Andrei Filipov (Aleksey Guskov) é um ex-maestro da orquestra Bolshoi que há 30 anos caiu em desgraça por negar-se a demitir os músicos judeus, como exigiam seus superiores no governo Leonid Brezhnev. Como punição, foi rebaixado ao posto de faxineiro, no mesmo prédio em que conduzia seus instrumentistas. El tem vivido 30 anos de privações e humilhações, mas nada liquidou o ânimo de Andrei, que vive à espera de uma oportunidade de redenção.

Ela chega sob a forma de um convite para uma apresentação em Paris da orquestra Bolshoi, que é subtraído pelo ex-regente. Como um garoto travesso, ele entusiasma-se pela ideia de remontar, clandestinamente, seu grupo de músicos (eles também relegados a empregos como chofer de táxi ou sonoplastas de filmes pornôs) e ressuscitar, artisticamente, em grande estilo.

Impossível não simpatizar com um projeto de revanche tão justo e tão louco. E com meandros tão complicados, exigindo que Andrei lidere negociações com patrocinadores nada convencionais, como mafiosos russos, e também desarme um amalucado imbróglio para obter, em escassas duas semanas, passaportes e vistos necessários de entrada para a França. Todos devidamente falsos, é claro.

Mihaileanu mostra-se fiel ao seu estilo de priorizar a empatia com o público, procurando diverti-lo e comovê-lo às vezes na mesma cena. Assim, não teme o ridículo ao retratar os músicos russos como um bando barulhento e cafona, sem demonstrar a menor preocupação com o politicamente correto.

Assim, será balbúrdia em cima de balbúrdia essa viagem a Paris, onde o sóbrio e sensível Andrei delineia aos poucos sua obsessão, que compreende não só comandar uma turnê com a antiga e destreinada orquestra, como insistir em ter como solista uma jovem e prestigiada violinista, Anne-Marie (Mélanie Laurent, de "Bastardos Inglórios"). Os motivos desta insistência só serão conhecidos, com todos os detalhes, na esperada sequência final.

Se há uma coisa que se pode creditar a Mihaileanu é uma poderosa imaginação. Ele recheia de detalhes toda a composição da trama - por vezes rocambolesca, é verdade -, cujo roteiro ele assina, ao lado dos colaboradores Matthew Robbins e Alain-Michel Blanc, a partir do argumento original de Hector Cabello Reyes e Thierry Degrandi.

Mihaileanu, certamente, não procura a perfeição e aí estão seu fraco, pois às vezes fragiliza uma sequência, e seu forte, porque não compromete sua ousadia e liberdade. Quem duvida da capacidade de extrair emoções, como humor, a partir do desastroso sotaque com que seus russos falam francês -- um detalhe, aliás, bastante realista, diante do perfil dos envolvidos?

Ao mesmo tempo, o cineasta não perde de vista o foco de seu clímax - o concerto -, semeando dúvidas sobre a sua realização e a participação de Anne-Marie. Também obtém a cumplicidade do público ao compor, na figura do maestro Andrei e na de seu melhor amigo, o violoncelista Sacha (Dmitry Nazarov), um centro de dignidade que permite que a história não desande pela via cômica.   Continuação...