20 de Janeiro de 2011 / às 15:51 / em 7 anos

ESTREIA-"Biutiful" pode ganhar indicação de Oscar para o México

<p>Javier Bardem chega &agrave; estreia de seu filme "Biutiful" em Los Angeles. 14/12/2010 REUTERS/Fred Prouser/Arquivo</p>

SÃO PAULO (Reuters) - Integrante da pré-lista de nove filmes que disputam as cinco vagas concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro 2011, o drama mexicano “Biutiful”, do diretor Alejandro González Iñárritu (“Babel”), reúne alguns dos temas caros à filmografia do diretor - como a morte, o espiritualismo, além de um denso mergulho no problema da exploração do trabalho de imigrantes clandestinos na Europa.

É numa Barcelona sombria que o protagonista, Uxbal (Javier Bardem), luta pela sobrevivência. Apesar de europeu, ele não tem outra escolha a não ser tornar-se agenciador do trabalho de imigrantes chineses e africanos para sustentar seus dois filhos pequenos. A extrema dedicação às crianças, aliás, é um dos traços que redime este homem extremamente dividido.

Em entrevista por telefone a partir de Los Angeles, onde mora, o diretor Iñárritu, que corroteirizou o filme, disse à Reuters que “a complexidade da natureza de Uxbal era justamente o que me interessava nele. Ele não é bom nem mau. Não é fácil julgá-lo”.

A imigração ilegal entrou na história a partir de uma ampla pesquisa, que incluiu entrevistas do diretor com dezenas de africanos e chineses. Alguns deles estão no elenco como atores secundários. “Precisava entender como viviam, sua relação com as populações locais e as autoridades. O trabalho desses não atores, inclusive, dá ao filme essa verdade, porque é um documento hiper-realista”, afirmou. Para Iñárritu, a imigração ilegal “é a escravidão do século 21”.

A morte interfere na trajetória de Uxbal em mais de um momento, quando ele se vê diante de uma grave enfermidade, e também pelos riscos que seus trabalhadores correm diariamente pelas precárias condições de alojamento e trabalho. Paralelamente, o personagem tem um dom mediúnico, com o qual não lida muito bem - embora eventualmente e a contragosto dê consultas e receba dinheiro por isso.

Falando da morte, que entra sempre em seus filmes - como “Amores Brutos” (2002), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006) - o diretor explica: “Eu sempre observo a morte a partir da vida. Mais que a morte, me interessa a vida. E é ao sentir que pode morrer que Uxbal, paradoxalmente, sente que a vida está ganhando significado. Ele encontra esse sentido no amor, na compaixão”.

Já a espiritualidade é um tema que há muito tempo intriga o diretor. “Senti-me sempre estimulado pela ideia de vida após a morte. É fascinante este debate se somos mais do que corpo, sangue e carne, embora eu esteja sempre em conflito entre crer e não crer. Ainda assim, me interessou colocar isso no diálogo do filme”.

Para este tema, igualmente, o diretor entrevistou diversas pessoas, algumas das quais tinham conflitos com seu dom, como Uxbal. “Foram estas que me impactaram”, admitiu.

Integrante do trio de diretores e produtores mexicanos de maior circulação internacional, ao lado de Alfonso Cuarón (“Filhos da Esperança”) e Guillermo Del Toro (“O Labirinto do Fauno”), Inárritu comenta como vê o fato de filmar em vários países fora do seu: “Interessa-me o ser humano, além da geografia, do idioma, do lugar onde se filma. Na alteridade, encontro a mim mesmo. Somos todos similares em tantos aspectos”.

Neste momento, o diretor - que deveria ter vindo ao Brasil para lançar “Biutiful” mas teve que cancelar por problemas pessoais - já está envolvido na escrita de algumas novas histórias. Mas nada será para já.

“Geralmente levo dois anos num roteiro. Não gosto de análise demais, senão isto gera paralisia. Gosto de ir encontrando o tom e o ritmo do filme aos poucos. Filmando, encontro mais este ritmo. Mas na montagem é que o encontro realmente”.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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