ESTREIA-"Biutiful" pode ganhar indicação de Oscar para o México

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011 13:47 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Integrante da pré-lista de nove filmes que disputam as cinco vagas concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro 2011, o drama mexicano "Biutiful", do diretor Alejandro González Iñárritu ("Babel"), reúne alguns dos temas caros à filmografia do diretor - como a morte, o espiritualismo, além de um denso mergulho no problema da exploração do trabalho de imigrantes clandestinos na Europa.

É numa Barcelona sombria que o protagonista, Uxbal (Javier Bardem), luta pela sobrevivência. Apesar de europeu, ele não tem outra escolha a não ser tornar-se agenciador do trabalho de imigrantes chineses e africanos para sustentar seus dois filhos pequenos. A extrema dedicação às crianças, aliás, é um dos traços que redime este homem extremamente dividido.

Em entrevista por telefone a partir de Los Angeles, onde mora, o diretor Iñárritu, que corroteirizou o filme, disse à Reuters que "a complexidade da natureza de Uxbal era justamente o que me interessava nele. Ele não é bom nem mau. Não é fácil julgá-lo".

A imigração ilegal entrou na história a partir de uma ampla pesquisa, que incluiu entrevistas do diretor com dezenas de africanos e chineses. Alguns deles estão no elenco como atores secundários. "Precisava entender como viviam, sua relação com as populações locais e as autoridades. O trabalho desses não atores, inclusive, dá ao filme essa verdade, porque é um documento hiper-realista", afirmou. Para Iñárritu, a imigração ilegal "é a escravidão do século 21".

A morte interfere na trajetória de Uxbal em mais de um momento, quando ele se vê diante de uma grave enfermidade, e também pelos riscos que seus trabalhadores correm diariamente pelas precárias condições de alojamento e trabalho. Paralelamente, o personagem tem um dom mediúnico, com o qual não lida muito bem - embora eventualmente e a contragosto dê consultas e receba dinheiro por isso.

Falando da morte, que entra sempre em seus filmes - como "Amores Brutos" (2002), "21 Gramas" (2003) e "Babel" (2006) - o diretor explica: "Eu sempre observo a morte a partir da vida. Mais que a morte, me interessa a vida. E é ao sentir que pode morrer que Uxbal, paradoxalmente, sente que a vida está ganhando significado. Ele encontra esse sentido no amor, na compaixão".

Já a espiritualidade é um tema que há muito tempo intriga o diretor. "Senti-me sempre estimulado pela ideia de vida após a morte. É fascinante este debate se somos mais do que corpo, sangue e carne, embora eu esteja sempre em conflito entre crer e não crer. Ainda assim, me interessou colocar isso no diálogo do filme".

Para este tema, igualmente, o diretor entrevistou diversas pessoas, algumas das quais tinham conflitos com seu dom, como Uxbal. "Foram estas que me impactaram", admitiu.

Integrante do trio de diretores e produtores mexicanos de maior circulação internacional, ao lado de Alfonso Cuarón ("Filhos da Esperança") e Guillermo Del Toro ("O Labirinto do Fauno"), Inárritu comenta como vê o fato de filmar em vários países fora do seu: "Interessa-me o ser humano, além da geografia, do idioma, do lugar onde se filma. Na alteridade, encontro a mim mesmo. Somos todos similares em tantos aspectos".   Continuação...

 
<p>Javier Bardem chega &agrave; estreia de seu filme "Biutiful" em Los Angeles. 14/12/2010 REUTERS/Fred Prouser/Arquivo</p>