ESTREIA-Premiado "Um Lugar Qualquer" investiga crise de astro

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011 08:49 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - A primeira cena de "Um Lugar Qualquer" é de uma simplicidade tão grande quanto a complexidade que ela representa. Um homem, numa Ferrari preta, dá diversas voltas numa pista circular. A câmera está parada e meio deslocada para o canto. Depois de um tempo, ele pára, desce do veículo, lança um olhar inquisidor ao seu redor, como que perguntando: "Onde estou?". A resposta vem com o título do filme, que aparece em seguida.

O homem é o astro de cinema Johnny Marco (Stephen Dorff, de "Inimigos Públicos"), e esse arco de transformação pelo qual ele passa é catalisado em sua filha de 11 anos, Cleo (Elle Fanning, de "O Curioso Caso de Benjamin Button"). O pai mora no Chateau Marmont - um dos hoteis mais famosos de Hollywood, que serve de abrigo a muitas celebridades. Mais tarde, depois de passar um tempo cuidando da filha, a mesma Ferrari da primeira cena terá outro significado.

Em "Um Lugar Qualquer", vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2010, Sofia Coppola, que assina roteiro e direção, pode transitar em sua zona de conforto, remetendo diretamente ao seu filme mais famoso, "Encontros e Desencontros" (2003). Nem por isso ela se repete. Aqui, ela lida com os temas que são constantes em sua obra: a solidão, o amadurecimento, os relacionamentos familiares. Mas o que fazem os grandes cineastas senão dirigirem o mesmo filme várias vezes? Sofia realiza um cinema que desafia os padrões norte-americanos atuais, em que tudo deve ser muito explicado e acontecer de forma rápida.

Seus filmes têm um ritmo próprio. "Um Lugar Qualquer" baixa o nível da adrenalina e encadeia sua narrativa de forma pausada - entenda-se, não sonolenta -, apoiado no relacionamento dos personagens centrais. O que conduz a trama é o estreitamento dos laços entre pai e filha. Ela entra no mundo dele, mas leva consigo o dela.

A vida de Johnny no famoso hotel é cercada de regalias e marasmo. Entre a promoção de um filme e a rodagem de uma cena para outro, ele leva Cleo à aula de patinação no gelo, ou brinca com seu "guitar hero", ou se entedia diante do show particular de duas strippers.

Se a vida do ator é um vazio existencial, a de Cleo parece ter tudo no lugar. Ela, de certa forma, é uma espécie de subversão das personagens femininas de Sofia, que, até então, estavam perdidas no mundo e em constante crise. A identidade da garota ainda está em formação mas, mesmo assim, ela parece muito mais segura e confiante do que o pai. Como não podia deixar de ser, ela tem suas dúvidas - todas pertinentes à sua idade e amadurecimento.

Filha de cineasta, Sofia cresceu cercada pelo seu clã (que inclui atores e músicos) e amigos da família. Pôde, assim, sempre observar de perto como agem, reagem e se movem artistas e celebridades. Num primeiro momento, esse é o combustível para três de seus quatro longas.

O tema está presente além deste, em "Encontros e Desencontros" (2003) e "Maria Antonieta" (2006). Mas essa não é uma questão que limita em sua obra. É como se ela usasse essa bolha do vazio das celebridades para falar da crise interna que atinge qualquer pessoa, em qualquer idade ou lugar no mundo.

Para investigar a vida interior que nos aflige, Sofia não precisa de muitos diálogos ou ações. Seus filmes, em especial "Um Lugar Qualquer", encontram força em suas imagens, em seus sons, nas trilhas sonoras que tanto dizem sobre os personagens. Aqui, por exemplo, há uma canção dos Strokes chamada "I'll try anything once", que começa dizendo: "Dez decisões dão forma à sua vida e você se dá conta de umas cinco". É exatamente nessa fissura que está Johnny: decisões que não foram tomadas por ele, mas, mesmo assim, ele precisa lidar com elas.   Continuação...