ESTREIA-"O Vencedor" mostra as várias faces do mundo do boxe

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 08:27 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - No ringue, só um lutador pode vencer. Mas se não fossem dois os heróis de "O Vencedor", a curva dramática do filme não existiria. São dois irmãos, homens de trajetórias inversas, que ocupam o centro da trama - Micky Ward (Mark Wahlberg, de "Os Donos da Noite"), o caçula, está subindo no mundo do boxe, no rumo de tornar-se campeão; o mais velho, Dicky Eklund (Christian Bale, de "Batman Begins"), ao contrário, já desperdiçou sua chance, embora tenha no currículo um nocaute sobre ninguém menos do que a lenda Sugar Ray Leonard.

Essa dualidade, que alimenta desde a tragédia grega até as histórias em quadrinhos, funciona com energia no drama dirigido por David O. Russell, com roteiro armado por Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. Não é à toa que o filme vem acumulando prêmios - especialmente para Christian Bale e Melissa Leo, que parecem apostas certas no Oscar de coadjuvantes, depois de terem vencido os Globos de Ouro e os prêmios do Sindicato dos Atores. Além dessas duas, o filme concorre em outras cinco categorias: filme, diretor, montagem, roteiro original e atriz coadjuvante também para Amy Adams.

O que está fora do ringue é tão importante quanto o que acontece em cima dele. O clã familiar exerce uma pressão formidável sobre Micky Ward. Apesar de ser um lutador em ascensão, ele tem de carregar essa família toda nas costas - o irmão drogado que se tornou seu treinador, a mãe possessiva, Alice (Melissa Leo, de "Rio Congelado"), e um time de sete irmãs desocupadas e intrometidas. O pai dele, George (Jack McGee), faz o que pode, mas também costuma sucumbir a este quase irresistível poder.

Diante do declinante sex-appeal, a matrona Alice compensa com mão de ferro o poder sobre os compromissos de Micky e sua renda - nem sempre em benefício do filho. Apesar de sua inegável experiência, Dicky é um treinador um tanto relapso - desaparecendo para 'viajar' no crack. Sem vida própria, Micky encontra na desbocada Charlene (Amy Adams, de "Dúvida") uma namorada e uma força nova para reagir ao resto do clã.

A performance sutil de Wahlberg, que produziu o filme e foi uma das principais razões de ele ter sido realizado, talvez não esteja sendo devidamente avaliada pelas premiações - que preferem atuações mais carregadas, embora excelentes, como são as de Bale e Leo. Mas são as dúvidas, hesitações e o tumulto interior desse protagonista que ditam o ritmo de todo o resto. Micky carrega a pulsação do filme em cada golpe dado ou recebido. Mas Dicky é quem sempre tem o poder de alterar essa energia.

Baseado em personagens e situações reais, "O Vencedor" insere seu nome numa longa galeria de bons filmes sobre o boxe, renovando sua gama de contradições dramáticas. Mesmo quem não gosta do esporte, pode sintonizar-se com as emoções à flor da pele de uma família irlandesa e exagerada, que lembra muitas outras que conhecemos tão bem.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
<p>Mark Wahlberg na estreia de "O Vencedor" em Hollywood. 06/12/2010 REUTERS/Mario Anzuoni/Arquivo</p>