ESTREIA-"Bravura Indômita" renova o charme do faroeste

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 11:43 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em seu 15o filme, Ethan e Joel Coen realizam o seu primeiro faroeste. Pelo sucesso -- a maior bilheteria de sua carreira, já ultrapassando os 155 milhões de dólares -- e a perspectiva de levar pelo menos alguns dos dez Oscar a que concorrem, os irmãos diretores, ao que tudo indica, fizeram o "Os Imperdoáveis" dos anos 2000.

O filme de 1992 de Clint Eastwood também foi consagrado, faturou quatro Oscar e ressuscitou um gênero que já foi condenado à morte várias vezes. Mais uma vez, ele ressuscita neste belo filme, um trabalho da maturidade dos cineastas que faturaram quatro Oscar por "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2007), inclusive melhor direção, a que concorrem novamente em 2011.

Para quem conhece o "Bravura Indômita" de 1969, de Henry Hathaway, com John Wayne como protagonista -- que foi relançado em DVD e blu-ray --, a história é certamente muito semelhante, mas com diferenças que assinalam a personalidade da nova encarnação. Os Coen voltaram à fonte original, ou seja, o romance de Charles Portis de 1968, e fizeram a sua própria leitura.

O trio principal, certamente, está lá -- a garota Mattie Ross (a impressionante novata Hailee Steinfeld, indicada ao Oscar), aos 14 anos empenhada na vingança do assassinato do pai; o oficial beberrão Rooster Cogburn (Jeff Bridges, na fila de seu segundo Oscar), que ela contrata para caçar o assassino; e LaBoeuf (Matt Damon), um Texas Ranger também na cola do mesmo criminoso, por causa de uma recompensa.

Se a trama que une os três é a mesma, o tom da história não é. Muito menos a maneira como os três atores se apropriam de seus personagens. A maior atualização recai sobre a figura de Mattie, nesta nova versão muito mais dura e realista do que a meiga Kim Darby de 1969. Um detalhe que aproxima mais Hailee de Mattie é que ela realmente tem 14 anos -- enquanto Kim era uma moça de 21.

Boca-dura, voluntariosa e muito esperta, Hailee tem o maior desafio -- encaixar-se num mundo adulto e convencer Cogburn e LaBoeuf de que ela não abre mão de participar pessoalmente da captura de Tom Chaney (Josh Brolin). E ela dá conta espetacularmente bem do recado. A cena em que ela veste as roupas e coloca o chapéu do pai e se põe a caminho do território indígena, onde se esconde Chaney, neste sentido, é emblemática. Mattie realmente está deixando a infância para trás e definitivamente tornando-se adulta. Ela nem sabe ainda o quanto.

Na pele do oficial bêbado, rústico e matador, Jeff Bridges dá um show de interpretação. Começando pela dicção incompreensível de matuto, cujo melhor amigo é uma garrafa de uísque. Ele é muito mais rude e convincente do que o heroico John Wayne. Nas cenas de bebedeira, então, nem se fala. É fato que Bridges habita Cogburn, um sujeito endurecido, forjador das próprias leis e que não costuma fazer prisioneiros, só cadáveres. Um papel excepcionalmente rico para o ator, vencedor do Oscar em 2009 por "Coração Louco", que não trabalhava com os Coen desde "O Grande Lebowski" (1998), e se mostra sob medida para o seu destemor como intérprete.

Na encarnação sutil de Matt Damon, igualmente o texano LaBoeuf torna-se mais interessante, menos dândi e mais cowboy.

Uma outra diferença a favor desta versão é aprofundar mais o contexto. No filme de 1969, apesar de se passar em território indígena, não se vê um índio. Aqui há vários, começando pela cena inicial do enforcamento -- em que ao único condenado nativo é negado o direito das últimas palavras.   Continuação...

 
<p>Jeff Bridges e Hailee Steinfeld, indicados aos Oscars de melhor ator e melhor atriz coadjuvante por "Bravura Ind&ocirc;mita", no almo&ccedil;o para os indicados, em Beverly Hills. 07/02/2011 REUTERS/Mario Anzuoni/Arquivo</p>