ESTREIA-"Trabalho Interno" disseca crise de 2008 e disputa Oscar

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 10:25 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Se alguém procura um mapa da crise econômica mundial que, em 2008, sacudiu mercados, sugou trilhões de dólares em riqueza, causou a falência de grandes instituições financeiras, o desemprego de milhões de pessoas e uma instabilidade sem precedentes em vários países, ele está no documentário "Trabalho Interno", de Charles Ferguson. O filme entra em cartaz em São Paulo e Rio de Janeiro.

Premiado com o troféu de melhor roteiro de documentário pelo Sindicato dos Roteiristas dos EUA e concorrente ao Oscar de documentário, o filme chama a atenção, desde o início, pela solidez de sua pesquisa. Lidando com um tema complexo, diversas entrevistas e materiais de arquivo, o filme consegue ser claro e incisivo ao mesmo tempo.

Autor de outro documentário igualmente contundente, "No End in Sight" (2007), que abordou as razões do governo George W. Bush para a guerra do Iraque, o intelectual, ex-palestrante de universidades como Berkeley e o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), e milionário da indústria do software desde os anos 1990, Ferguson mostra-se um entrevistador altamente preparado -- e não raro corrosivo para desavisados, como o ex-assessor de George W. Bush, Glenn Hubbard.

Conciso, didático e detalhado, o filme explica como diversos bancos norte-americanos promoveram agressivamente o financiamento e refinanciamento de hipotecas, mesmo para aqueles que claramente não podiam pagá-las, ao mesmo tempo em que especulavam em cima desse não-pagamento, com lucros astronômicos.

Enquanto crescia a bolha da ciranda financeira, lobistas se empenhavam junto a políticos para que não se aprovasse nenhuma legislação dificultando seus movimentos -- mantendo a desregulamentação iniciada nos anos 1980, com o presidente republicano Ronald Reagan, mantida pelo democrata Bill Clinton, na década de 1990.

Não por acaso, negaram entrevistas ao cineasta alguns dos arquitetos e defensores do modelo especulativo que quebrou bancos como Goldman Sachs e Lehman Brothers -- caso dos ex-secretários do Tesouro Larry Summers, Robert Rubin, Henry Paulson e Timothy Geitner, vistos apenas em imagens de arquivo.

É ouvido também um dos poucos a ter enfrentado os mega-especuladores, o ex-procurador geral e depois governador de Nova York, Eliot Spitzer.

Por muitas razões, "Trabalho Interno" é um filme realisticamente sombrio.

Primeiro, porque denuncia que os idealizadores destas operações de alto risco fizeram-no deliberadamente -- o que constitui crime, ainda não punido.   Continuação...

 
<p>O filme "Trabalho Interno", de Charles Ferguson, entra em cartaz em S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro. 01/02/2011 REUTERS/Fred Prouser</p>