ESTREIA-Em "Jogo de Poder", política vira crise matrimonial

quinta-feira, 17 de março de 2011 15:34 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - "Jogo de Poder" é um filme sobre crises -- internas e externas, de caráter global e de caráter intimista. É uma história sobre pessoas forçadas ao limite de sua imagem pública, o que acaba esfacelando o seu íntimo, suas relações pessoais. Dirigido por Doug Liman ("A Identidade Bourne"), o roteiro tem como base o livro de memórias da ex-agente da CIA Valerie Plame e outro do seu marido, Joseph Wilson, personagens centrais do longa.

O casal é interpretado por Naomi Watts ("Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos") e Sean Penn ("Milk - A Voz da Igualdade"), que trabalham juntos pela terceira vez (eles também fizeram "21 Gramas" e "O Assassinato de um Presidente"). Os dois atores são a maior qualidade e o maior atrativo do filme de Liman, que nem sempre sabe para que lado quer atirar: o da trama política ou o drama intimista.

O jogo de geopolítica, espionagem, enganos e reviravoltas é a parte que menos funciona. Valerie é uma agente da CIA que pouco para em casa, participando de várias missões perigosas em lugares como Cairo e Kuala Lampur. Ao mesmo tempo, precisa lidar com crises domésticas, criando um casal de gêmeos pequenos. Apenas o marido e os pais (Sam Shepard e Polly Holliday) sabem do seu verdadeiro trabalho, ignorado por amigos e vizinhos.

Quando a identidade secreta de Valeria vaza na imprensa, em 2003, ela não apenas perde o emprego e alguns amigos -- especialmente os mais conservadores --, como sua vida se transforma num inferno. É perseguida por desconhecidos, recebe ameaças anônimas e até seu casamento fica na corda bamba, apesar de Valerie e seu marido, um ex-embaixador, dividirem a mesma visão da política e do governo George W. Bush.

O que mais impressiona sobre a protagonista é como ela vê a si mesma: não é uma heroína. É uma profissional, uma agente especial treinada para lidar com situações de crise. Pena a CIA não lhe ter ensinado como lidar com uma grande crise pessoal e emocional.

A exposição da identidade secreta de Valerie, afinal, mais tem a ver com o seu marido do que com ela mesma. Embaixador aposentado, Wilson, ao voltar de Níger, apresentou um relatório constatando que o iraquiano Sadam Hussein não estava desenvolvendo armas de destruição em massa com urânio daquele país. Isso desagrada ao governo norte-americano, cujo argumento para invadir o Iraque incluía justamente as supostas ADM. Para atingir Wilson, expõe-se a sua mulher.

Não há uma urgência de suspense político em "Jogo de Poder". Valerie é mais uma vítima da circunstância do que uma combatente feroz do governo Bush - ao contrário de seu marido. Penn parece ter nascido para fazer esse papel. Muitas de suas famosas críticas na vida real ao governo dos EUA cabem muito bem no discurso de Wilson.

"Jogo de Poder" funciona bem melhor quando mostra o drama pessoal de Valerie e Wilson. Suas vidas são destruídas com o vazamento da identidade secreta dela, e mesmo o casamento fica por um fio. O filme mostra isso de forma sutil e dá espaço para os atores construírem personagens repletos de nuances.

É quando deixa de lado as manchetes de jornais e o escândalo político, centrando-se nas discussões do casal na cozinha de casa que o longa tem muito mais a dizer.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb