ESTREIA-Em "Bróder", periferia é berço da amizade de jovens

quarta-feira, 20 de abril de 2011 13:00 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O cineasta Jeferson De tomou o pulso da periferia paulistana e estreou em longas com "Bróder", um drama sólido em torno da irmandade espiritual e sincera de três jovens nascidos no Capão Redondo.

O imenso bairro do extremo sul da capital paulista, quase uma cidade dentro da cidade, ganha contornos, detalhes e humanidade. Tudo isso pulsa na tela com muita tensão, por conta de um roteiro afinado -- de Jeferson, Newton Cannito e colaboração do mais conhecido escritor da região, Ferréz, nos diálogos.

Ancorado nessa fonte de verdade, o filme se estrutura com uma montagem tensa, rente aos personagens, de Quito Ribeiro, que sinaliza o quanto a tragédia flerta com a alegria quase sem fronteira, quase sem parar. É dessa matéria viva que "Bróder" é feito.

A passagem por alguns festivais em 2010, como Berlim, com premiação em Paulínia (quatro prêmios) e Gramado (três, incluindo melhor filme, diretor e ator), amadureceu o filme, que está sendo lançado numa versão com diversas mudanças na montagem e na trilha sonora -- todas para melhor.

Contando a vida de Macu (Caio Blat), entrando no crime, Jaiminho (Jonathan Haagensen), que estourou como jogador de futebol na Espanha, e Pibe (Silvio Guindane), o cara honesto que vive apertado, a história se dilata. Jaiminho vem visitar o amigo Macu, aniversariante, aproveitando a feijoada preparada por sua mãe, Sonia (Cássia Kiss). Outro compromisso na agenda de Jaiminho é resolver uma história pendente, a gravidez da irmã de Macu, Elaine (Cíntia Rosa).

Enquanto se aproxima de "Cidade de Deus", comparação inevitável pela referência à violência na periferia, "Bróder" cria feição própria ao insistir na vinculação ao afeto. É o sentimento que une os três amigos em qualquer situação. E não faltam motivos para testar seus limites ao longo desse dia que o filme desdobra como seu tempo dramático, circulando por eventos como o planejamento de um sequestro, reencontros com paixões do passado e as lembranças de tudo que tornou cada um dos três protagonistas o que é.

Essa "visão de dentro" da periferia conduz o naturalismo que a história procura, sem estigmatizar seus habitantes. Se há uma tarefa de que o diretor dá conta com eficiência é desenhar seus personagens com a força de uma autenticidade que os irmana a qualquer outra pessoa, moradora do Capão ou de qualquer outro lugar.

Em nome do realismo, não se procura embelezar o cenário, que se apresenta despojado, precário como realmente é, assim como as relações com outros personagens fundamentais desse cotidiano, como a polícia e os chefões do crime que moram fora da favela, mas a comandam e manipulam, fazendo parte integrante de seus desvios.

Da mesma forma, emerge dessa mistura a força da família -- como a formada por Sonia e Francisco (Ailton Graça), o casal mestiço, brasileiro típico, lutador e sonhador; o casal evangélico (Zezé Motta e João Acaiabe), pais de Napão (o rapper Du Bronks), outro que o crime perdeu. Se há uma instituição que resiste a tudo, à criminalidade inclusive, e serve como esteio de toda e qualquer reconstrução, é essa família, apesar de abalada pelos percalços de seu contexto.   Continuação...