5 de Maio de 2011 / às 16:48 / 6 anos atrás

ESTREIA-Nicole Kidman está em "Reencontrando a Felicidade"

<p>Nicole Kidman chega &agrave; cerim&ocirc;nia dos Oscars em Hollywood, em fevereiro. Seu filme "Reencontrando a Felicidade" estreia neste final de semana em circuito nacional. 27/02/2011 REUTERS/Mario Anzuoni</p>

SÃO PAULO (Reuters) - Não é fácil conversar com Becca (Nicole Kidman, indicada ao Oscar) e Howie (Aaron Eckhart). Sempre é preciso ter muito tato, pensar duas vezes antes de tocar em algum assunto, fazer mil rodeios e certificar-se de que não vai trazer à tona qualquer lembrança do casal sobre a grande tragédia por que passou há menos de um ano.

Por isso, os primeiros minutos de “Reencontrando a Felicidade” são quase um mistério. Os personagens conversam, mas o público percebe que não falam sobre tudo. Há uma artificialidade, um receio.

Só mais tarde se vai entender tanto cuidado. Há oito meses, o casal perdeu o filho pequeno e ainda tenta lidar com essa dor. Eles procuram um grupo de ajuda, que parece funcionar melhor para Howie, enquanto sua mulher bate de frente com pessoas que vivem a mesma situação e buscam explicações, quando não há. Ela, por sua vez, encerra-se em seus demônios pessoais, parecendo que a dor é mais um conforto do que algo a ser superado.

À primeira vista, “Reencontrando a Felicidade” não parece o material ideal para o terceiro filme de John Cameron Mitchell, cuja obra consiste de “Shortbus” e “Hedwig - Rock, Amor e Traição” - filmes em que a questão da sexualidade (até com sexo explícito) era o centro.

Neste novo longa, por sua vez, Becca e Howie são praticamente assexuados - embora exista uma tentativa frustrada de sedução.

Por outro lado, o diretor demonstra ter a sensibilidade certa para este material, adaptado por David Lindsay-Abaire, baseado em sua peça ganhadora do Pulitzer.

Boa parte da força de “Reencontrando a Felicidade” vem de seu texto, dos bons diálogos e da forma como a narrativa se abre, com a tensão crescendo de forma gradativa. Uma das melhores cenas acontece quando Howie e Becca começam a discutir sobre um assunto e culminam numa disputa para saber qual dos dois tem mais culpa na morte do filho. Eles não culpam um ao outro, mas cada um a si mesmo.

A situação torna-se mais delicada quando a problemática de Becca, Izzy (Tammy Blanchard), engravida e a mãe delas, Nat (Dianne Wiest), insiste em comparar a morte do neto com a do seu próprio filho.

O que nenhum personagem parece perceber - e nisso inclui-se a própria Becca - é que ela não está preparada para lidar com a dor ou seguir em frente, termos apenas paliativos que os grupos de ajuda tanto gostam de usar. Ninguém tem a coragem de sugerir que ela procure outros tipos de apoio.

Os dilemas são constantes. O que fazer com as roupas e brinquedos do menino? O que fazer com o cachorro? E como lidar quando vir por acaso o motorista que dirigia o carro que matou o filho dela? Felizmente, “Reencontrando a Felicidade” evita os caminhos dos clichês.

Ao contrário, o filme segue de forma sutil, dando espaço para que os personagens vivenciem suas histórias, sem empurrá-los numa ladeira de desespero. Por isso, é uma surpresa quando ela se torna amiga de Jason (Miles Teller), rapaz responsável pelo acidente.

Não existem segundas intenções nos encontros entre os dois. Eles querem apenas conversar. Partilham de um trauma mútuo, em diferentes proporções e com significados diferentes. Mas cada um pode beneficiar-se da presença do outro.

Ao contrário de Becca, o marido Howie insiste em frequentar um grupo de apoio em que pessoas se encontram, algumas há vários anos, para falar sobre a morte dos filhos.

O título original do filme, “Rabbit Hole”, que se traduz como “toca do coelho”, faz uma referência clara ao universo de “Alice no País das Maravilhas”. Mas também ganha outros sentidos ao longo de “Reencontrando a Felicidade”.

É necessário um universo paralelo, um mundo de fantasia, para superarmos os nossos traumas, as nossas dores? Ou seja, é preciso escapismo para enfrentar a vida? Quando o filme levanta questões como essa, encontra-se a grande humanidade e beleza que residem em seus personagens, e é quando mais nos identificamos com eles.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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