22 de Junho de 2011 / às 15:59 / em 6 anos

ENTREVISTA-Woody Allen fala sobre nostalgia e escândalo

Por Christine Kearney

Diretor Woody Allen divulga seu filme "Meia-noite em Paris" no Festival de Cannes, em maio. 11/05/2011 REUTERS/Jean-Paul Pelissier

NOVA YORK (Reuters Life!) - Woody Allen se debruça sobre a nostalgia, entre outros tópicos, em “Meia-Noite em Paris”, o mais recente de uma série de filmes dele ambientados na Europa.

O filme transporta seu protagonista, representado por Owen Wilson, de volta aos bons velhos tempos da Belle Époque e da Paris dos anos 1920. O diretor conclui que, na realidade, ele teria sido infeliz em qualquer época, dourada ou não.

Woody Allen, 75 anos, conversou com a Reuters sobre seus anseios, sobre saudades de filmar em Nova York e sobre suas aversões em matéria de tecnologia e outros prazeres modernos.

Pergunta- Você ainda datilografa seus roteiros em uma máquina de escrever?

Resposta- Não tenho processador de textos. Não sou o tipo de pessoa que aprecia engenhocas.

P- Então você escapou de coisas como Twitter e Facebook?

R- Twitter - não faço ideia do que seja isso. Mas o Facebook eu conheço, porque assisti ao filme (“A Rede Social”) e gostei. Portanto, sei o que é o Facebook. E tenho um site meu na Internet, que nunca vi na vida. Não faço ideia de se funciona nem de qual seria sua utilidade, mas algumas pessoas o criaram para mim.

P- Então como você se adapta ao mundo dos iPods e iPads?

R- Tenho um telefone e um celular, mas só o que consigo fazer no celular é fazer e receber telefonemas. Não tenho qualquer outra utilidade para ele - não tenho, como se chama, um número de texto?

Você já viu pessoas idosas que colam uma fita sobre muitos dos botões de seus televisores, para que não possam cometer um engano? Para que não possam acessar aqueles botões e só possam ligar e desligar o televisor? Eu sou exatamente assim. Enquanto houver apenas dois botões para pressionar, eu dou conta.

P- Tendo sido roteirista de TV no passado, o que você acha de como está a televisão hoje em dia, da TV realidade, de Snooki em “Jersey Shore”?

R- Nunca assisto a nada disso. Vejo os nomes nos jornais e assim por diante, mas nem sequer sei do que se trata. Assisto à televisão, mas não isso. Vejo quase exclusivamente esportes.

P- Seu filme mais recente, “Meia-Noite em Paris”, examina a nostalgia. Do que você sente mais nostalgia?

R- É verdade que fico nostálgico em meus momentos de fraqueza. Começo a relembrar o passado e a pensar “era ótimo poder jogar ‘stickball’ (algo semelhante a beisebol, jogado por crianças na rua com uma bola e bastões) na rua e então entrar correndo em casa, tomar um banho e comer alguma coisa nada saudável” - sem fazer ideia de que não fosse saudável, nem se preocupar com isso. Era uma vida mais simples. Mas então paro e penso, será mesmo? Voltar àquela vida. Será que ela era tão legal assim?. Não era. Eu odiava a escola, me saía muito mal nas aulas, tinha problemas de toda espécie. Era terrível.

P- Seus pensamentos sobre a mortalidade vêm mudando recentemente?

R- Não, eu já era contra a mortalidade aos 5 anos de idade, quando primeiro tomei consciência dela. Continuo a ser contra. Somos programados pela natureza para resistir à ideia de morrer, para nos preservarmos, para cuidar de nós mesmos e lutar por nossas vidas. Não sou diferente de ninguém com relação a isso. Posso diferir na medida em que faço parte do grupo de pessoas para as quais a mortalidade está presente em nossa consciência mais frequentemente. Mas não há nada que possamos fazer a esse respeito. Provavelmente sofremos mais, porque não conseguimos bloquear isso tão facilmente. Todo o mundo é provido de um mecanismo de negação. O meu é defeituoso.

P- Por que você é tão respeitado na Europa?

R- Acho que eu ganho algo a mais na tradução. Faço um filme e em toda a Europa, em todo o mundo, as pessoas o amam, possivelmente porque não enxerguem meus erros.

P- Você é demais para a mentalidade americana convencional?

R- Sim, somos um país muito religioso, mas, para mim, isso é problema dos americanos convencionais. Eu não assino embaixo disso. Não sou religioso nem pudico. Sob esse aspecto sou um pouco mais europeu, mas você encontrará um pouco mais disso em Nova York do que no resto do país, acredito. Nova York é o que temos que mais se aproxima de uma cidade europeia. Quando você sai para o interior, o ambiente se torna muito puritano e com muitas sobrancelhas erguidas em sinal de espanto, mas a gente não pode ceder um centímetro sequer a isso, porque esse é o caminho que leva à esterilidade e à morte.

P- Mesmo assim, os críticos gostaram deste filme. Você acha que os EUA estão dispostos a perdoá-lo por seus escândalos passados?

R- Qual foi o escândalo? Eu me apaixonei por essa garota, me casei com ela. Estamos casados há quase 15 anos.

Não houve escândalo, mas as pessoas se referem a isso o tempo todo como escândalo, e eu até gosto disso, de certa maneira, porque, quando eu me for, vou gostar de dizer que tive um escândalo realmente apimentado em minha vida.

P- Você sente saudades de filmar no Central Park no outono?

R- Não, eu amo Nova York. E tenho certeza que voltarei para cá e trabalharei aqui outra vez. As únicas duas coisas que têm me impedido de voltar é quando um lugar estrangeiro deu o dinheiro para eu trabalhar e insistiu que eu trabalhasse lá, ou quando eu não tive condições financeiras de trabalhar aqui.

P- Seu próximo filme na Itália será inspirado em Fellini?

R- Não. Por que Fellini? E por que não Antonioni? Não, o filme não é inspirado em ninguém. É apenas uma comédia, não uma comédia romântica, mas uma comédia pura e simples.

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