CORREÇÃO-ESTREIA-"Melancolia" traz visão de Von Trier sobre vida

quinta-feira, 4 de agosto de 2011 19:11 BRT
 

(Corrige o ano em que Charlotte Gainsbourg ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes para 2009, em vez de 2010)

SÃO PAULO (Reuters) - "Melancolia", o novo trabalho do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, começa em ultra slow motion, num prelúdio do que acontecerá mais adiante. O resultado é um filme visualmente muito elaborado, com inspiração em pinturas pré-rafaelitas e alemãs, música de Beethoven (como a "Nona Sinfonia") e traduzindo a habitual visão niilista do diretor sobre a vida, as relações humanas, sobre tudo, enfim. Não escapa nem o destino do planeta.

Premiada em 2009 como melhor atriz no Festival de Cannes por "Anticristo", a francesa Charlotte Gainsbourg retorna neste novo trabalho como Claire, uma das irmãs protagonistas da história.

A outra é a norte-americana Kirsten Dunst, interpretando Justine, e que acabou vencendo, por sua vez, o prêmio de melhor atriz este ano em Cannes - onde a discussão do filme em si, que concorria à Palma de Ouro, foi bastante prejudicada devido a declarações do diretor, dizendo que "entendia Hitler".

Um tema que nada tinha a ver com "Melancolia" e acabou custando a Von Trier ser declarado "persona non grata" no festival que o consagrou.

"Melancolia" divide-se em duas partes, a primeira dedicada a Justine, a segunda, a Claire, materializando a dualidade de uma reflexão sobre a irmandade, um dos temas do filme.

No início, uma enorme limusine quase atolada num caminho estreito demais para as suas dimensões sinaliza o início dos tropeços desta trajetória. A bordo está o par de noivos Justine e Michael (Alexander Skarsgard, da série "True Blood"), ainda rindo de toda a situação, atrasadíssimos para sua grande festa. Uma pompa que não esconde as profundas dúvidas da moça quanto ao passo que está dando.

A partir dos discursos à mesa, dos pais divorciados das irmãs (John Hurt e uma Charlotte Rampling cortante e esplêndida, como sempre), as aparências que os anfitriões Claire e o marido, John (Kiefer Sutherland) estão tentando tão arduamente manter, começam a rachar. E segue adiante uma lenta e sistemática demolição das crenças convencionais de que o casamento, o sucesso profissional e financeiro possam sustentar qualquer tipo de estabilidade, seja pessoal ou coletiva.

"Melancolia" nasce diretamente de "Anticristo", obra que marcou o auge da depressão do diretor. "Melancolia" é uma espécie de ritual de saída da depressão, mas que nem por isso conduz ao otimismo.   Continuação...

 
Kirsten Dunst na exibição do filme "Melancolia", de Lars Von Trier, no Festival de Cannes. O filme estreia nesse final de semana em circuito nacional. 18/5/2011  REUTERS/Christian Hartmann