ESTREIA-"A Alegria" leva para tela diálogo com a fantasia

quinta-feira, 18 de agosto de 2011 12:25 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Há uma ironia muito grande no título de "A Alegria", segundo longa da dupla Felipe Bragança e Marina Meliande (mas primeiro a chegar ao circuito comercial). Se é proposital ou não, tanto faz. A verdade é que este é um filme sobre o tédio, sobre as coisas que as pessoas - especialmente os jovens - são capazes de inventar quando têm tempo de sobra e procuram romper a rotina.

Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2010, "A Alegria" é um filme sobre jovens, mas há dúvidas se é para jovens. Os protagonistas parecem viver num mundo à parte - ou talvez tenham vindo de outro, o que é uma explicação bastante plausível ao final da trama.

Eles estão muito mais próximos dos emos sofredores sem causa de "Os famosos e os duendes da morte", do que do viés naturalista de "As melhores coisas do mundo", "Antes que o mundo acabe" e até "Desenrola".

A oposição entre os jovens retratados nos dois grupos de filmes é nítida. No segundo, é uma juventude de carne e osso, que vemos na porta da escola, no shopping, na praia. Já no primeiro caso, os diretores (Bragança e Marina, de "A Alegria"; e Esmir Filho, de "Os Famosos...") miram numa idealização de um grupo que foge do convencional.

Curiosamente, esses dois filmes têm uma proposta estética mais ousada do que outros três - mas isso também não quer dizer que sejam bem-sucedidos.

Criar personagens que pouco ou nada se assemelhem a pessoas de verdade, a priori, não seria um problema, pelo contrário. Mas, em ambos os longas, as figuras não encontram a densidade necessária para extrapolar sua existência além-filme.

É como se Luiza (Tainá Medina) e sua turma fossem criadas apenas para existir enquanto personagens de ficção durante pouco mais de uma hora e meia. São como pessoas recortadas de uma placa de papelão. Como acreditar em personagens que parecem criados sem passado e sem futuro além da delimitação do começo e final de "A Alegria"?

O esforço dos diretores em criar uma obra cinematográfica com identidade própria e de grande poder visual está impresso em cada cena. E isso, no fim, é um ponto contra, porque não deixa o filme respirar. É meditado demais, calculado demais em todos os seus detalhes, em todo o seu esforço visual e narrativo.

O grupo de jovens do elenco - que inclui, além de Tainá, Flora Dias, Rikle Miranda e Cesar Cardadeiro (que em 2008 esteve excelente como Bentinho, na série "Capitu") - é visivelmente talentoso, mas falta uma direção de atores segura para guiá-los (a maioria é estreante), para ajudá-los a achar seus personagens.   Continuação...