ESTREIA-Claude Lelouch recorre à velha fórmula em "Esses Amores"

quinta-feira, 25 de agosto de 2011 11:18 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Caminhando para os 74 anos (que completa em outubro próximo), o veterano cineasta francês Claude Lelouch assina, em seu 43o filme, "Esses Amores", com estreia em São Paulo e Rio de Janeiro, uma espécie de síntese de sua obra e de 50 anos de dedicação ao cinema.

O enredo reúne "fragmentos da vida", como define, já nas primeiras imagens, o cineasta, amante desses grandes painéis em que se pode entrelaçar vida e arte, de preferência embaladas por muita música - repetindo a fórmula de um de seus maiores sucessos, "Retratos da Vida" (1981), que ficou anos em cartaz no Brasil.

A viagem de Lelouch é cronológica. Começa no cinema mudo, com uma cena em preto-e-branco, colhida de um antigo filme do diretor, "Toda Uma Vida" (1974). Nesta sequência, um jovem cinegrafista (Charles Denner, morto em 1995) apaixona-se por uma bela mulher (Judith Magre). Com ela, tem um filho, mas parte para a Primeira Guerra Mundial e morre.

Simon, o filho (adulto, interpretado por Laurent Couson) vai ser um dos protagonistas de uma longa história, do próprio Lelouch, com roteiro de Pierre Uytterhoeven, que atravessa a Segunda Guerra Mundial e coloca este personagem como o verdadeiro narrador das muitas aventuras da mulher fatal Ilva Lemoine (Audrey Dana, que atuou em filme anterior do diretor, "Crimes de Autor").

A vida de Ilva é quase rocambolesca. Seu padrasto é um projecionista, Maurice (Dominique Pinon), que tem relações com a Resistência. Quando ele é preso e ameaçado de execução, ela procura um comandante alemão, Horst (Samuel Labarthe), que finalmente salva a vida de seu pai. E Ilva, contra toda conveniência, apaixona-se pelo oficial nazista.

Depois do fim da guerra e de pagar o preço por sua ligação com o inimigo, Ilva divide-se na paixão, agora por dois soldados americanos (Jacky Ido e Gilles Lemaire). Um caso que a coloca em grandes apuros, desemboca num imbróglio criminal e, por fim, a leva de encontro a Simon, um pianista que virou advogado.

Percorrendo um amplo espectro de acontecimentos históricos, intercalados por trechos de filmes antigos - dos franceses Marcel Carné ("Trágico Amanhecer" e "Hotel do Norte") e Jean Gremillon ("Águas Tempestuosas"), além do americano Victor Fleming ("...E o Vento Levou") - e músicas (como "Stormy Weather"), Lelouch desfolha seu folhetim. Como sempre, o diretor arremata o destino de todos os personagens. Não deixa história sem final, mas parece querer abarcar temas demais neste passeio por tantas décadas, tantos filmes, tantas músicas.

Há um inegável empenho técnico, visual e sonoro. Mas falta um pouco de pausa para respirar, de sutileza. Há momentos em que os turbilhões histórico-musicais de "Esses Amores" deixam seus espectadores atordoados.

Que o filme é pessoal e tem toques autobiográficos, não há dúvida. O diretor o dedica, inclusive, a seus sete filhos, dois dos quais estão no elenco: Salomé Lelouch e o garoto Sachka, que interpreta, aliás, o alter ego do pai, como um garoto que, durante a guerra, se refugia na cabine de projeção do cinema Eden Palace e se apaixona pelo cinema.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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