August 25, 2011 / 2:27 PM / 6 years ago

ESTREIA-"Diário de uma Busca" resgata ditaduras recentes

4 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO (Reuters) - Documentário de estreia da diretora gaúcha Flávia Castro, "Diário de uma Busca" revela-se uma dura reconstrução da identidade de uma família que, por sua própria natureza, termina desvendando fragmentos importantes do período de ditaduras recentes no Brasil, Chile e Argentina, entre as décadas de 1960 e 1970.

O filme, que está em cartaz há dez semanas na França (trata-se de uma coprodução francesa com o Brasil) e também em Porto Alegre, estreia nesta semana em São Paulo. O personagem buscado no documentário é o pai de Flávia, o ex-jornalista e militante político Celso Afonso Gay de Castro (1943-1984), cuja morte misteriosa, em Porto Alegre, há anos intriga a família.

Segundo a versão da polícia, Celso e um amigo, Nelson Heredia, invadiram o apartamento de um ex-cônsul do Paraguai, o alemão Rudolf Goldbeck, e teriam se suicidado quando o imóvel foi cercado pelos policiais, em outubro de 1984. Nunca se soube com certeza o que Celso e o amigo foram fazer no apartamento, cujo dono, posteriormente, foi alvo de suspeitas de um passado nazista, nunca devidamente aclaradas.

A diretora, que deu início a este projeto em 2002, lança-se a uma reavaliação da própria infância e do irmão menor, João Paulo, certamente atípica. Filhos dos militantes Celso e Sandra, que se opunham à ditadura militar instalada no Brasil em 1964, as crianças cresceram no exílio, primeiro no Chile, depois na Argentina, e finalmente, na França.

Como a pequena protagonista de um filme de ficção, "A Culpa é do Fidel", de Julie Gavras, os garotos conheciam por dentro a rotina da clandestinidade. Viviam em apartamentos onde era constante a entrada e saída de pessoas, que vinham para reuniões políticas. As próprias crianças eram orientadas a usar nomes falsos, que não revelavam nem aos amigos da escola.

Em conversas com a mãe e o irmão, a diretora revela uma notável coragem para investigar a fundo essa intimidade da família, que aos poucos contribui para criar um eloquente testemunho da vida naqueles tempos conturbados. Igualmente esclarecedores são os depoimentos de colegas de militância de Celso de Castro, como o assessor internacional do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia.

Os depoimentos mais intrigantes, no entanto, estão nas entrevistas de um médico legista e de policiais que lidaram com o caso. O legista aponta para a improbabilidade na tese do suicídio de Celso, como concluído no inquérito policial.

No segundo caso, há divergências. Um policial lembra claramente de ter visto fardas nazistas, "inclusive da Gestapo", na casa de Goldbeck. Já o delegado encarregado do inquérito demonstra uma falta de memória tão completa sobre um caso tão rumoroso que fica no ar a sensação de algum tipo de acobertamento.

"Diário de uma Busca" certamente não encerra a investigação que promove, o que de modo algum o enfraquece. É um documentário na primeira pessoa, mas que escapa às limitações do mero diário íntimo ao relacionar a sua história a muitas outras.

O filme foi premiado em diversos festivais em 2010, como Gramado (prêmio da crítica), do Rio (melhor documentário e prêmio da Fipresci, Federação Internacional dos Críticos), Biarritz (melhor documentário) e, em 2011, Punta del Este (melhor filme).

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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