ESTREIA-"Família Vende Tudo" ri de preconceitos da classe média

quinta-feira, 29 de setembro de 2011 09:02 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - De um filme cujo título nos créditos iniciais aparece na etiqueta de uma calcinha barata, pode-se esperar tudo, menos bom gosto. O resultado de "Família Vende Tudo," comédia de Alain Fresnot ("Desmundo", "Ed Mort") não é de causar nenhuma surpresa, ao contrário do excesso de prêmios que o filme recebeu no último Cine PE, em abril passado, entre eles o de melhor ator para Caco Ciocler e melhor atriz, para Marisol Ribeiro (este dividido com Leandra Leal, por "Estamos Juntos").

O filme parte do pressuposto que uma família pobre e em sérias dificuldades venderia tudo para conseguir dinheiro --por "tudo", entenda-se a própria filha. Ariclenes (Lima Duarte, curiosamente, interpretando um personagem que leva o nome de batismo do ator) e Cida (Vera Holtz) moram na periferia de São Paulo e vivem de trambiques e muambas.

Quando um carregamento deles é confiscado na fronteira do Paraguai, a família tem uma ideia brilhante.

A filha, Lindinha (Marisol), deverá seduzir o cantor brega Ivan Carlos (Ciocler) - rico, rei de um estilo chamado Xique, ele é uma espécie de sub-Latino (que, aliás, deu aulas ao ator e faz uma pequena participação no filme). O artista fez rios de dinheiro explorando o gosto duvidoso do povão. Ariclenes e Cida tornam-se cafetões da filha e conseguem que seu plano dê certo.

Apesar de casado com Jennifer (Luana Piovani), Ivan não pensa duas vezes em passar noites com fãs e dispensá-las na manhã seguinte. Como esperado, o plano dá certo e a família vai cobrar seus lucros da gravidez da moça, batendo de frente com a primeira-dama de Xique.

Nesse processo de ganhar dinheiro às custas de Lindinha, a família toda se corrompe. Até o filho evangélico (Robson Nunes) revela-se mais interessado no dinheiro do que em suas crenças.

Um a um, os personagens de "Família Vende Tudo" mostram-se corruptíveis. Se todos são imorais, o filme em si é extremamente amoral, debochando sem dó da classe C, partindo de preconceitos numa visão mundo-cão que ficaria bastante confortável em qualquer programa sensacionalista da televisão.

Não há qualquer preocupação em entender personagens, construir tramas, dramas e conflitos. A opção do diretor e roteirista do filme é simplesmente pelo escracho, forçando preconceitos ao extremo.

Lindinha nada mais é do que uma versão das Maria Chuteiras no mundo musical, com a qual os pais encontram, na fragilidade moral de Ivan, a brecha para a tranquilidade financeira da família.   Continuação...