September 29, 2011 / 12:07 PM / 6 years ago

ESTREIA-"O Dia que Não Nasci" é drama de filhos de desaparecidos

5 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO (Reuters) - O aparentemente inesgotável baú de histórias sobre a guerra suja argentina dos anos 70/80 ganha uma densa e digna discussão na coprodução entre Alemanha e Argentina "O Dia em que Eu Não Nasci", do diretor estreante Florian Micoud Cossen. O filme estreia em São Paulo.

Maria Falkenmayer (Jessica Schwarz) é uma jovem mulher de 30 anos, que vive com o pai, Anton (Michael Gwisdek, de "Adeus Lênin!"), na Alemanha. Ela faz uma viagem à América do Sul. Enquanto espera no saguão do aeroporto de Buenos Aires por sua conexão para Santiago do Chile, Maria ouve uma canção de ninar. Para seu espanto, ela, que não fala uma palavra de espanhol, começa a cantarolá-la, despertando uma lembrança nebulosa.

Extremamente perturbada, ela interrompe a viagem e resolve explorar a capital argentina, onde uma jornada extremamente perturbadora está começando. Ela descobre que roubaram seu passaporte e tem que ficar ali alguns dias à espera do novo documento. É o segundo indício de que sua identidade está perdendo os contornos conhecidos.

Quando seu pai é informado do incidente, tem uma reação impulsiva e desembarca em Buenos Aires, no hotel em que a filha se hospeda. O controlado Anton acaba admitindo ter mentido a Maria. Na verdade, ela não é sua filha biológica. Foi adotada por ele e pela mulher, Liliana, já falecida, quando tinha 3 anos, depois do desaparecimento de seus pais na repressão da ditadura militar argentina.

Na época, o casal alemão morava em Buenos Aires. Liliana, mulher de Anton, trabalhava na creche da empresa em que Anton e o pai de Maria também eram funcionários. Um dia, ninguém apareceu para buscar a menina, a quem Liliana era muito apegada. Pouco depois, souberam que os pais haviam sido presos. Em seguida, o casal voltou à Alemanha, levando Maria.

Esta é apenas uma parte da verdade. A outra parte, Maria vai descobrir investigando por conta própria, já que Anton resiste a ajudá-la a encontrar possíveis parentes na cidade, embora ele fale espanhol e ela não.

A sorte a ajuda a encontrar, pela lista telefônica, seus tios (Carlos Portaluppi e Beatriz Spelzini), com quem ela tem um encontro em que a barreira linguística é superada pela identificação imediata da imagem de Maria às fotos de sua mãe - de quem nunca mais se teve notícia, bem como do marido.

Habilmente, o roteiro do próprio Florian Cossen com Elena Von Saucken elabora esta dolorosa desconstrução da identidade de Maria com um emocionalismo contido, traduzido quase sempre apenas pelo expressivo rosto da atriz Jessica Schwarz (de "Perfume - A História de um Assassino").

A câmera colada no seu corpo, que caminha obsessivamente pelas ruas de Buenos Aires e nada numa piscina pública, onde lava suas lágrimas, igualmente testemunha sua agitação, pelo desabamento de tudo o que ela pensava saber sobre si mesma.

Um detalhe curioso é o relacionamento de Maria com um policial, Alejandro (Rafael Ferro, de "Medianeras"), que fala alemão e, por isso, torna-se uma espécie de guia para ela.

Esconder a profissão de Alejandro num dia em que ele a acompanha como intérprete à casa da tia é apenas mais um capítulo desse jogo de verdades e mentiras que Maria joga com a realidade imediata, que tão mal lida com o passado próximo. Alejandro também não quer perguntar ao próprio pai, igualmente policial, o que andou fazendo durante a ditadura argentina.

Maria e sua tia, no entanto, querem saber mais sobre tudo. Especialmente quando fica claro que Anton pode não ter agido de maneira cristalina na adoção da menina. Claramente, é um momento de sentimentos divididos para os dois lados, especialmente quando a tia quer engajar Maria num processo contra Anton, que a tia considera como um sequestrador.

Vencedor dos prêmios ecumênico, do público e da Fipresci (Federação dos Críticos) no Festival de Montreal 2010, o filme de Cossen não deixa de tecer, nas entrelinhas, uma fina alusão aos fantasmas mal-sepultados de todos os autoritarismos - nas entrelinhas, ecos do nazismo flutuam sutilmente.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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