13 de Outubro de 2011 / às 14:07 / 6 anos atrás

ESTREIA-"A Criança da Meia-Noite" lida com rara doença genética

SÃO PAULO (Reuters) - Diretora consagrada desde os seus primeiros curtas e conhecida no Brasil por seu primeiro longa, "Estranhas Ligações" (premiado na seção Certain Regard de Cannes em 2002), a francesa Delphine Gleize confirma um estilo e personalidade cinematográfica em seu segundo longa, "A Criança da Meia-Noite."

Sem se aventurar na mesma estranheza do clima do primeiro filme - que girava em torno do destino dos restos de um touro, que unem a vida de pessoas em diversos lugares -, a diretora encontra aqui um equilíbrio entre intimismo e incerteza, falando de sentimentos e dos efeitos de uma rara doença genética - o xeroderma pigmentoso, conhecido como XP.

Trata-se de uma extrema sensibilidade causada pela falta de resistência aos raios ultravioleta, o que geralmente induz a uma série de cânceres e a uma curta expectativa de vida.

A corporalidade domina o filme, porque é ela que determina o cotidiano de Romain (o estreante Quentin Challal), um adolescente de 14 anos transformado em criatura noturna por conta de sua doença. Para sair de casa e ir à escola durante o dia, necessita de uma roupa especial, feita de um tecido produzido pela NASA, que lhe dá a aparência de um astronauta em plena rua. Por conta disso, toda sua socialização é problemática. E Romain reage com agressividade ao mundo em redor.

No Brasil pela segunda vez - a primeira foi em 2003 -, desta vez para lançar o segundo filme, a diretora Delphine Gleize, em entrevista à Reuters, em São Paulo, explicou que não foi curiosidade pela doença o que a motivou a escrever o roteiro.

"A doença não é o centro do filme, é o amálgama da história. O que me interessava era este personagem do garoto que recebe uma educação contrária à dos outros, inclusive na organização do tempo. Também me interessava este personagem que queria ser adulto antes de ser adolescente. Ele tem uma urgência de viver, como os velhos," explicou a diretora.

Vivendo com a mãe (Caroline Proust), já que o pai deixou a família, Romain encontra uma figura paterna no seu médico, David (Vincent Lindon, de "Mademoiselle Chambon"). É com ele que desabafa a cada crise, que costuma ser desencadeada ao nascimento da mínima pinta, o mínimo sinal na pele - geralmente, provocando ansiedade e uma pequena intervenção cirúrgica.

Esta particularidade complica a adolescência de Romain que, como todos de sua idade, está descobrindo a sexualidade, com uma urgência ainda maior, porque vem pontuada pela incerteza sobre a própria duração de sua vida. Para ele, é como se o tempo se movesse numa espécie de cronômetro acelerado.

A pequena zona de conforto proporcionada pela relação com o médico está perto de uma ruptura, quando David recebe, finalmente, uma promoção esperada há mais de uma década, para atuar na Organização Mundial de Saúde. Para David, é um sucesso em hora errada. Neste momento, o médico não tem a menor vontade de abandonar seu consultório, nem seus pacientes. E teme pela reação de Romain.

A chegada da médica substituta, Carlotta (Emmanuele Devos, de "Um Conto de Natal") cria uma tensão própria. Por mais que deseje sua promoção, David não gosta de ver um território duramente conquistado, sendo invadido por uma médica mais nova, que lhe parece mais inexperiente, além de ter outro estilo. O fato de ser mulher também ativa algumas faíscas no ar.

Este foi, segundo a diretora, o terceiro filme em que os atores Vincent Lindon e Emmanuele Devos contracenaram, o que foi uma vantagem.

"Eles se conhecem tanto que é formidável vê-los juntos. E são atores totalmente opostos. Vincent é muito físico, ocupa o espaço, faz barulho, depois é que fala. Já Emmanuele coloca primeiro sua voz e depois seu corpo segue esta voz, que é, aliás, muito particular. Neste estilo oposto, a confrontação que deviam ter seus personagens aconteceu naturalmente, até porque um queria surpreender o outro," contou Delphine.

O foco da história, no entanto, está na explosão dos sentimentos de Romain. Ator de primeira viagem, o garoto Quentin Challal imprime esta eletricidade à flor da pele em cada fotograma. Através dele e de sua relação delicada com David, cria-se um drama intimista com um clima mais realista e natural do que a média do gênero que, quando encenada em Hollywood, costuma ganhar doses cavalares de soluções açucaradas e mágicas.

Aqui há doçura, mas também descontrole. E não há redenções absolutas. Ninguém sabe se Romain vai viver muito, se vão encontrar uma cura para sua doença. Nem por isso a diretora considera ter feito um filme triste.

"Eu me sinto muito inquieta com a ideia da morte. Mas, para mim, este filme trata da conservação da vida. Eu filmo uma pele em que as cicatrizes se fecham sempre. Para mim, esta pele não é triste. É a vida, a promessa de que a vida continua. Mas, antes, é preciso que ela seja aberta," resumiu.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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